Ferramenta reúne dados de bacias hidrográficas de todo o país e busca apoiar políticas públicas voltadas à redução do uso de agrotóxicos e à proteção dos recursos hídricos
O governo federal lançou na última segunda-feira (11) o Painel de Monitoramento de Agrotóxicos nos Recursos Hídricos, primeira plataforma pública a consolidar dados nacionais sobre a presença de pesticidas em rios brasileiros e seus impactos sobre a vida aquática.
Desenvolvida pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) com metodologia da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa Meio Ambiente), a ferramenta reúne 213 amostras coletadas em diferentes bacias hidrográficas do país desde 2024 e permite acompanhar informações como pontos de coleta, substâncias rastreadas e frequência de detecção de pesticidas na água. Segundo o MMA, o objetivo é ampliar a transparência, apoiar pesquisas e fortalecer a tomada de decisão por parte de gestores públicos e órgãos ambientais.
A plataforma é uma das entregas do Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pronara), instituído pelo Decreto nº 12.538/2025, que prevê a redução gradual do uso de pesticidas no país, especialmente os classificados como altamente perigosos ao meio ambiente e extremamente tóxicos à saúde humana.
Por que o painel importa
Antes do painel, dados sobre contaminação por agrotóxicos estavam dispersos em diferentes bases, o que dificultava a análise integrada. “Estamos oferecendo à sociedade brasileira uma plataforma pública de transparência e inteligência ambiental que permitirá acompanhar tendências, identificar riscos e orientar ações preventivas”, afirmou o ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, durante o evento de lançamento.
Além disso, Leonardo Goes, diretor-presidente interino da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), destacou que o monitoramento ganha relevância no contexto em que a relação entre agricultura e água ganha novos contornos diante das mudanças climáticas.
“A qualidade da água é um dos pilares da segurança hídrica. Monitorar a presença de contaminantes em corpos hídricos é fundamental não apenas para a preservação ambiental, mas também para proteger o abastecimento humano, a produção de alimentos e o desenvolvimento de atividades econômicas estratégicas, entre elas a aquicultura e a piscicultura”, afirmou.
O que os dados mostram e o que o painel ainda não captura
A plataforma permite filtrar dados por bacia hidrográfica, estado, município, rio, data de coleta e tipo de contaminante, além de cruzar essas informações com o uso predominante do solo na região monitorada – café, cítricos, cana, arroz, soja, pastagem, entre outros. Há ainda mapas de distribuição dos pontos de coleta e indicadores de risco para a vida aquática. O resultado é um retrato mais detalhado da relação entre produção agrícola, qualidade da água e biodiversidade nas regiões monitoradas.
Em 63 pontos de coleta distribuídos por todos os estados, o monitoramento rastreou 49 tipos de agrotóxicos desde 2024. Todos foram encontrados em pelo menos uma das 213 amostras analisadas até agora. Áreas associadas ao cultivo de cítricos registraram a maior frequência de detecção; pastagens, a menor.
O painel também avalia o risco potencial dos agrotóxicos detectados para a vida aquática, com base em uma metodologia da União Europeia adaptada por pesquisadores da Embrapa, da Unifesp e da Unicamp. Segundo Fábio Kummrow, professor da Unifesp que apresentou os resultados no lançamento, o cálculo é feito de duas formas:
- Quando cada substância é avaliada isoladamente, 2,1% das amostras apresentaram risco potencial.
- Quando se considera o efeito combinado das várias substâncias presentes na mesma amostra (em geral, três ou quatro ingredientes ativos diferentes), o percentual sobe para 61,9%.
Mas a ferramenta tem limitações reconhecidas pelos próprios responsáveis. O glifosato – herbicida com maior volume de vendas no Brasil e no mundo – não está entre as 49 substâncias monitoradas porque sua detecção exige equipamento analítico dedicado, que a Embrapa ainda não dispõe para esse programa.
Além disso, o monitoramento se concentra em águas superficiais; análises de sedimentos, onde costumam se acumular substâncias menos solúveis em água, devem começar no segundo semestre de 2026, segundo Robson Barizon, chefe de pesquisa e desenvolvimento da Embrapa Meio Ambiente.
O Painel de Monitoramento de Agrotóxicos nos Recursos Hídricos está aberto à consulta pública aqui.
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