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Empreendedorismo social no Brasil e no mundo

Empreendedorismo social no Brasil e no mundo
Empreendedorismo social é o movimento empresarial focado na solução de problemas que afetam a sociedade e o planeta. Nesse modelo de negócio, o lucro das operações é utilizado como uma ferramenta de transformação para um mundo melhor. Leia este artigo e saiba mais!

Empreendedorismo social é o movimento empresarial focado na solução de problemas que afetam a sociedade e o planeta. Nesse modelo de negócio, o lucro das operações é utilizado como uma ferramenta de transformação para um mundo melhor. Leia este artigo e saiba mais!

Sim, é possível ter um negócio economicamente viável e lucrativo e que, ao mesmo tempo, gere impactos socioambientais importantes, contribuindo para a resolução de problemas na sociedade e no mundo. 

Aliás, observando as transformações globais pelas quais estamos passando, fica cada vez mais claro que esse é o melhor (se não o único) caminho para garantirmos um futuro próspero e sustentável. 

Como resposta ao modelo tradicional de fazer negócios focado apenas na geração de lucro, surge o movimento de empreendedorismo social.

Nesse modelo de negócio, as atividades têm o objetivo central de resolver algum problema social ou ambiental. O lucro não é o objetivo final, mas ele é gerado com o intuito de impulsionar transformações na sociedade. As empresas que atuam dentro dessa categoria também são chamadas de “negócios de impacto” ou “negócios de impacto social”.

Neste artigo, você vai assimilar melhor esse conceito e entender por que ele é tão relevante. Além disso, conhecerá os benefícios e as oportunidades que essa abordagem de negócio oferece. Por último, mas não menos importante, descobrirá exemplos práticos que dão um panorama do empreendedorismo social no Brasil e no mundo.

Acompanhe!

O que é empreendedorismo social ou negócio de impacto?

Para começar, vamos definir o que NÃO é empreendedorismo social. 

Negócios de impacto não são o mesmo que organizações não governamentais.

Além de possuírem legislações e obrigações fiscais distintas, a principal diferença é que as ONGs não possuem fins lucrativos e funcionam por meio de doações e apoios. Empreendimentos sociais, por sua vez, geram lucro a partir da comercialização de seus produtos e serviços. Ou seja, são autossustentáveis!

Então, qual é a diferença entre uma empresa tradicional e um negócio de impacto? 

Apesar de haver geração lucro, no empreendimento social, ele não é o foco principal. Os empresários de negócios de impacto não têm como objetivo central a geração de riqueza própria e/ou para os acionistas.

O lucro, nesse modelo empresarial, é utilizado para financiar as operações e impulsionar mudanças significativas, resolvendo problemas no meio ambiente, na sociedade e/ou na comunidade em que a organização atua.

Segundo o Instituto de Cidadania Empresarial (ICE), há quatro princípios que diferenciam os empreendimentos sociais de outros tipos de empresas: 

  • Eles têm um propósito de gerar impacto socioambiental positivo explícito na sua missão;
  • Conhecem, mensuram e avaliam o seu impacto periodicamente;
  • Têm uma lógica econômica que permite gerar receita própria;
  • Possuem uma governança que leva em consideração os interesses de investidores, clientes e da comunidade.

“As empresas sociais colocam o impacto em primeiro lugar, enquanto ainda aproveitam o poder das forças do mercado e confiam no mecanismo de preços para atender de forma eficiente e eficaz as necessidades de seus beneficiários.

Os beneficiários, por sua vez, sentem-se tratados com dignidade e respeito, como parceiros de intercâmbio e não como receptores passivos de ajuda.

Ao mesmo tempo, ter um fluxo de receita torna o modelo de empreendedorismo social mais financeiramente sustentável do que depender apenas de doações”, destaca Jasjit Singh diretor do Programa de Empreendedorismo Social, na INSEAD.

Universo B

Uma observação importante a ser feita é a relação entre os conceitos de empreendedorismo social e a certificação B Corp. 

As empresas B (B Corps) são organizações com fins lucrativos que passam pelo processo de certificação realizado pela ONG norte-americana B Lab. Essas empresas reconhecem a importância do lucro para a sustentabilidade empresarial. Porém, essa não é a única métrica que as move.

Tudo a ver com o conceito de empreendedorismo social, certo? 

Porém, enquanto negócios de impacto social podem ser certificados como B Corps, nem todas as empresas B são empreendimentos sociais. Organizações que não se encaixam nessa categoria também podem receber a certificação da B Lab.

Natura, por exemplo, é uma B Corp, mas é não é um empreendimento social. Já a Thrive Farmers e a Patagônia são negócios que se encaixam no modelo de empreendedorismo social e também são B Corps.

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Empresas B: o que são e por que são tão importantes para o futuro do planeta

A relevância dos negócios de impacto social

O mercado de negócios de impacto social

Por falar nos países baixos, um exemplo holandês muito inspirador de negócio de impacto social é a Tony’s Chocolonely.
Confira a análise sobre as operações da Tony’s e o problema social que ela se propõe a acabar:

Tony’s Chocolonely: a empresa que nasceu para acabar com a escravidão na indústria do chocolate

O grande potencial e a relevância do empreendedorismo social no Brasil e no mundo está justamente no fato de que esse tipo de negócio está diretamente alinhado às tendências e movimentações globais em torno da resolução de problemas importantes.

Tais problemas são profundos, complexos e abrangem diversos aspectos sociais, econômicos e ambientais. 

Os números abaixo oferecem uma amostra dessas questões: 

Para tratar dessas e de outras questões relevantes que influenciam diretamente no desenvolvimento do planeta, em 2015, a Organização das Nações Unidas (ONU) lançou a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável. O documento lista 17 objetivos universais para erradicar a pobreza, proteger o planeta e garantir que as pessoas alcancem a paz e a prosperidade – os ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável).

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Enquanto a participação dos governos nessas questões é indispensável para a resolução desses problemas, o poder privado também tem um papel crucial nessa jornada.

Na verdade, sem o envolvimento ativo e o posicionamento das empresas em relação aos principais problemas sociais e ambientais indicados na Agenda 2030, será impossível alcançar os 17 ODS. E é nesse sentido que o movimento de empreendedorismo social se torna tão relevante, pois ele age diretamente nas soluções das questões e dos desafios apontados nos objetivos globais da ONU. 

Oportunidades do empreendedorismo social

Ao escolher o impacto socioambiental como seu valor primordial – ao invés da busca do lucro acima de tudo –, os empreendimentos sociais conseguem identificar e atender demandas de mercado que as empresas tradicionais (e o governo) negligenciam.

Por exemplo: 

Ao pensar apenas na geração de receita, uma organização pode decidir ignorar determinado público de classe mais baixa, por achar que ele não tem o potencial de contribuir para o faturamento do negócio.

Com uma visão que vai além da possibilidade de lucro, ao oferecer produtos e serviços alinhados ao perfil e às necessidades desse público, resolvendo problemas e carências que eles enfrentam, negócios de impacto social ajudam essa parcela da população a superar grandes obstáculos e, ao mesmo tempo, prosperam e geram lucro a partir dessas operações.

Esse é o caso de negócios de impacto social que atuam em favelas.

Como os moradores da periferia são negligenciados pelo poder público e privado, a visão empreendedora, de colocar a mão na massa, é predominante nesses locais. O estudo Economia das Favelas, desenvolvido pelos institutos Data Favela e Locomotiva em 465 comunidade, de 116 cidades, comprova esse aspecto: 

64% dos entrevistados no levantamento acreditam que “depende de si fazer a vida melhorar”;
– Somente 5% dos entrevistados responderam que o governo federal pode contribuir nesse sentido e apenas 1% espera contribuição da prefeitura municipal. 

A pesquisa indica ainda que os 13,6 milhões de cidadãos brasileiros que vivem nas favelas (que representam 6% da população do país) movimentam cerca de R$ 120 bilhões por ano; e que a renda média domiciliar per capita é de R$ 734,10. Contudo, esse mercado ainda é desconhecido pela maioria das empresas…

Empreendedorismo social e A Economia B

O contexto da favela, onde há grandes demandas e problemas sociais a serem resolvidos, é o tipo de ambiente ideal para o desenvolvimento de empreendimentos sociais.

Negócios de impacto podem atuar nessas comunidades preenchendo necessidades que não são atendidas pelo governo e por empresas tradicionais, promovendo o desenvolvimento dessas regiões e oferecendo acesso a serviços importantes aos moradores.

Para se ter uma ideia, segundo a Central Única das Favelas (Cufa), o mercado inexplorado nas favelas tem o potencial de gerar mais de R$ 50 bilhões.

Estes são alguns exemplos de negócios de impacto social que atuam para resolver problemas e atender necessidades específicas da favela:

1) Cufa Card

Cerca de ⅔ dos moradores da favela não possuem conta bancária. A Cufa Card, uma empresa de negócios financeiros sociais que tem como carro chefe um cartão social customizado para moradores de favelas, nasceu com o intuito de atender essa demanda.

2) Empreende Aí.

De olho no potencial empreendedor da periferia, a escola de negócios Empreende Aí surgiu para capacitar micro e pequenos empreendedores de territórios populares (comunidades e favelas) por meio do curso Despertando o Empreendedor.

3) Fave.Lar.

A Fave.lar é um negócio social que democratiza serviços de engenharia e arquitetura para a população da periferia. A empresa conecta profissionais da construção civil a moradores de favelas que desejam construir ou reformar.

E esse é apenas o caso das favelas.

Existem diversas outras demandas e problemas em outras áreas e setores (saúde, educação, desigualdade de gênero, meio ambiente etc.) que podem ser atendidos e resolvidos com a ajuda de negócios de impacto.

Os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU indicam alguns caminhos pelos quais o empreendedorismo social pode fazer a diferença. Além de ajudar a transformar o mundo em um lugar mais justo e pacífico para todos, o avanço das metas da Agenda 2030 também tem grande potencial econômico.

Para você ter uma ideia, segundo o relatório Better Business, Better Worldo alcance dos ODS pode gerar pelo menos 12 trilhões de dólares em oportunidades em diferentes mercadoscriando mais de 380 milhões de empregos, especialmente em países em desenvolvimento. Além disso, há também o fato de que os consumidores estão cada vez mais atentos ao posicionamento das empresas em relação a questões sociais e ambientais.

O estudo 2019 Edelman Trust Barometer aponta que mais do que esperar que as empresas os ajudem a tornar o mundo um lugar melhor, os consumidores acreditam que marcas devem ser protagonistas nessa missão.

– 81% dos consumidores entrevistados pela consultoria disseram que “ser capaz de confiar que a marca fará o que é certo” é um fator decisivo na decisão de compra;
– No Brasil, essa é uma questão ainda mais forte: 91% dos participantes da pesquisa afirmaram que esse é um fator crucial na escolha das marcas.

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Consumidores buscam marcas que sejam suas aliadas nas transformações sociais

Ou seja, em um mundo em que as pessoas levam em conta problemas socioambientais na hora de decidir o quê e de quem consumir, não faz sentido que as empresas negligenciem essas questões. E os negócios de impacto (assim como as B Corps) estão no caminho para atender a demanda crescente de clientes mais conscientes.

Com o empreendedorismo social, as empresas são muito mais do que provedoras de serviços e produtos, elas se tornam ferramentas de transformação e de desenvolvimento socioeconômico e ambiental.

Outros negócios de impacto social

A seguir, conheça mais alguns exemplos de empreendedorismo social no Brasil e no mundo e entenda os problemas socioambientais globais aos quais eles estão relacionados.

Diáspora.Black

Plataforma de anfitriões e viajantes interessados em promover, vivenciar e valorizar a cultura afrodescendente, com foco em empoderar e fortalecer economicamente a comunidade negra.

ODS relacionados:

  • Objetivo 8. Promover o crescimento econômico sustentado, inclusivo e sustentável, emprego pleno e produtivo e trabalho decente para todas e todos.
  • Objetivo 10. Reduzir a desigualdade dentro dos países e entre eles.

Boomera

A empresa foi criada para valorizar e dar nova vida a dejetos que iriam para aterros sanitários. Para isso, utiliza uma metodologia proprietária, chamada Circular Pack. O negócio une indústria, meio acadêmico e agentes ambientais para reciclar resíduos considerados difíceis e transformá-los em matéria-prima ou novos produtos.

ODS relacionados:

  • Objetivo 8. Promover o crescimento econômico sustentado, inclusivo e sustentável, emprego pleno e produtivo e trabalho decente para todas e todos.
  • Objetivo 12. Assegurar padrões de produção e de consumo sustentáveis.

Dr. Consulta

Startup que oferece uma rede de consultórios e médicos que atendem quem não tem plano médico e/ou está na fila do SUS. Com 59 clínicas populares, a rede aposta na tecnologia para aumentar eficiência, reduzir custos e salvar vidas.

ODS relacionados:

  • Objetivo 3. Assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todas e todos, em todas as idades.
  • Objetivo 10. Reduzir a desigualdade dentro dos países e entre eles.

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Evolução dos ODS: Saúde e bem-estar para todos

Cape Clasp

Uma marca quem tem o propósito de proteger a vida marinha. Para isso, a empresa destina 15% de seus lucros para instituições que trabalham para preservar a vida marinha. Além disso, recentemente a marca lançou um bracelete feito de plástico reciclado retirado dos oceanos – cada pulseira remove o equivalente a 100 garrafas de plástico dos mares.

ODS relacionados:

  • Objetivo 12. Assegurar padrões de produção e de consumo sustentáveis.
  • Objetivo 14. Conservação e uso sustentável dos oceanos, dos mares e dos recursos marinhos para o desenvolvimento sustentável.

Fed by Threads

Esse é um negócio de impacto social que atua em diferentes frentes.

Para começar, a empresa produz roupas usando apenas tecidos sustentáveis e ecológicos e utiliza apenas fornecedores certificados para garantir que as roupas sejam feitas inteiramente sem produtos de origem animal e com condições de trabalho justas. Além disso, para cada produto vendido, a empresa destina parte do lucro para cobrir refeições de emergência para pessoas que sofrem com fome e desnutrição.

ODS relacionados:

  • Objetivo 2. Acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar e melhoria da nutrição e promover a agricultura sustentável.
  • Objetivo 8. Promover o crescimento econômico sustentado, inclusivo e sustentável, emprego pleno e produtivo e trabalho decente para todas e todos.
  • Objetivo 12. Assegurar padrões de produção e de consumo sustentáveis.

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Evolução dos ODS: Erradicação da pobreza e Fome zero e Agricultura sustentável

Bons exemplos, não é mesmo?

Esperamos que eles sirvam de inspiração para você pensar em formas de usar seu negócio para o bem.

E se você conhece algum case de empreendedorismo social no Brasil ou ao redor do globo que acredita que merece entrar nessa lista, deixe um comentário. Compartilhar boas ideias é com a gente mesmo!

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Fotos: Markus Spiske; Perry Grone via Unsplash

Francine Pereira

Jornalista, especializada em criação de conteúdo digital. Há mais de 10 anos escrevo sobre tendências de consumo, inovação, tecnologia, empreendedorismo, marketing e vendas. Minha missão aqui no A Economia B é contar histórias de empresas que estão ajudando a transformar o mundo em um lugar mais justo, igualitário e sustentável.

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