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5 soluções que transformam o jeito como as cidades lidam com água, energia e resíduos

5 soluções que transformam o jeito como as cidades lidam com água, energia e resíduos – ChangeNOW 2026
Foto: Julien Philippy

Do gelo solar à água tirada do ar, iniciativas apresentadas no ChangeNOW 2026 mostram como tornar a infraestrutura urbana mais eficiente, resiliente e regenerativa

Pelo terceiro ano consecutivo, estivemos em Paris para cobrir o ChangeNOW, um dos principais eventos globais dedicados a soluções para a crise climática e socioambiental. Realizado no Grand Palais Éphémère, o encontro reuniu centenas de iniciativas de diferentes partes do mundo que buscam responder, de forma prática, aos desafios ambientais, sociais e econômicos da nossa era.

Entre os diversos temas abordados, as cidades ocuparam um papel central – e os dados ajudam a entender por quê. 

Segundo a revisão de 2025 do World Urbanization Prospects, publicada pela ONU em novembro do ano passado, 45% da população mundial vive hoje em cidades, e a projeção é de que cerca de 70% esteja em áreas urbanas até 2050. Na prática, isso faz com que os centros urbanos respondam por aproximadamente 75% do consumo global de energia e 70% das emissões de gases de efeito estufa, embora ocupem menos de 2% da superfície terrestre.

É também nas cidades que se concentram parte significativa das vulnerabilidades climáticas. O World Cities Report 2024, do UN-Habitat, alerta que populações urbanas mais marginalizadas – moradores de assentamentos informais, mulheres, crianças, migrantes e minorias étnicas – são desproporcionalmente afetadas pelos impactos da crise climática, e frequentemente ficam de fora dos planos de adaptação.

Ao mesmo tempo, é nesses territórios que surgem muitas das respostas a esses desafios – seja por meio de novas tecnologias, modelos de gestão, infraestrutura verde ou formas mais eficientes de usar o espaço urbano.

Durante os três dias de evento, conhecemos iniciativas que buscam contemplar diferentes dimensões do ambiente urbano, como gestão de água, eficiência de recursos, economia circular, monitoramento climático e infraestrutura resiliente. A seguir, apresentamos cinco soluções que apontam caminhos concretos para cidades mais preparadas para os desafios climáticos, sociais e econômicos do futuro.

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Shayp
Bélgica

Imagine ter que vigiar quilômetros de tubulação espalhados por centenas de prédios de uma cidade – entre escolas, escritórios, estádios, piscinas, depósitos e edifícios históricos –, conferindo manualmente cada vaso sanitário, torneira e caldeira em busca de algum vazamento. Essa é a realidade de muitas prefeituras e empresas mundo afora, e foi exatamente esse problema que motivou a criação da Shayp. 

A startup belga combina sensores conectados aos hidrômetros existentes com uma plataforma digital que monitora o consumo de água em tempo real. Algoritmos aprendem o padrão normal de uso de cada edifício e disparam alertas quando detectam fluxos anormais. O sistema é não invasivo (não exige modificar a tubulação) e funciona em qualquer escala, do edifício único a centenas de imóveis simultâneos.

Essa é uma solução local em sintonia com um problema global. Afinal, estima-se que cerca de 126 bilhões de metros cúbicos de água sejam perdidos no mundo por ano em vazamentos nos sistemas de distribuição – volume suficiente para abastecer perto de 90 milhões de pessoas durante um ano inteiro. E muito disso passa despercebido por meses, ou mesmo anos.

Na prática

A prefeitura de Bruxelas administra mais de 300 prédios públicos. Após implementar a solução da Shayp, a gestão local reduziu seu consumo de água em 30% em relação a anos anteriores, uma economia que, segundo o gestor técnico responsável, vem de identificar problemas que a cidade simplesmente não sabia que existiam. 

Em uma escola da capital belga, por exemplo, alertas recorrentes de vazamento levaram a equipe de manutenção à origem do desperdício: dois vasos sanitários funcionando continuamente, quatro torneiras pingando e um sistema de regeneração defeituoso rodando sem parar.

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Les Alchimistes
França

Comida desperdiçada não é só comida no lixo. Quando esses restos vão parar em aterros sanitários, eles se decompõem sem oxigênio e liberam metano, um gás de efeito estufa cerca de 80 vezes mais potente que o CO₂ no curto prazo.

Em escala global, o desperdício alimentar responde por 8% a 10% de todas as emissões de gases de efeito estufa do planeta, quase cinco vezes mais do que o setor de aviação. E o problema é majoritariamente urbano: 70% do consumo de alimentos no mundo acontece em cidades, onde restos de comida formam a maior fração do lixo doméstico.

Em vez de incinerar ou enterrar a matéria orgânica, a Les Alchimistes a transforma em composto e a devolve ao solo. Funciona assim: a empresa coleta resíduos alimentares de restaurantes, escolas, supermercados, hospitais e cantinas corporativas, e os direciona para plataformas locais de compostagem. O composto resultante é vendido a agricultores urbanos, hortas comunitárias e projetos paisagísticos, fechando o ciclo da matéria orgânica dentro do próprio território.

O modelo é descentralizado, com o tratamento acontecendo próximo ao local de geração, o que reduz transporte e emissões logísticas. Em diversas cidades, a coleta é feita a bicicleta.

Resultados

Desde 2020, a Les Alchimistes coletou e valorizou mais de 63 mil toneladas de resíduos alimentares. Além disso, como empresa solidária de utilidade social (figura jurídica francesa que combina lógica empresarial e impacto social), a organização também emprega pessoas em situação de vulnerabilidade no mercado de trabalho.

Há ainda um braço da operação que merece destaque pela ousadia. Estamos falando do projeto Les Couches Fertiles – “as fraldas férteis”, em tradução livre. 

Segundo a ADEME, agência nacional de transição ecológica, a França consome cerca de 3,5 bilhões de fraldas descartáveis por ano (o terceiro maior componente do lixo doméstico francês), um material rico em matéria orgânica que vai parar em incineradores ou aterros sanitários.

Em parceria com fabricantes que desenvolvem fraldas 100% compostáveis e com creches de Paris e Île-de-France, a Les Alchimistes opera uma cadeia experimental de coleta e compostagem desse tipo de resíduo, apontando para um cenário em que até o que parecia destinado ao aterro pode voltar para o solo.

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Everimpact
França

Medir com precisão as emissões de gases de efeito estufa é um dos principais desafios para cidades que buscam estruturar estratégias climáticas. Muitos inventários são feitos com base em estimativas anuais ou dados defasados, o que dificulta o acompanhamento do impacto real de políticas públicas e, consequentemente, a execução de ações prioritárias. Para solucionar esse problema, a Everimpact busca tornar esse monitoramento mais preciso, contínuo e operacional.

A partir de sensores instalados no território urbano com dados de satélite e modelos de inteligência artificial, essa startup mede emissões em tempo (quase) real. As informações são integradas em uma plataforma digital que permite visualizar as emissões por área, setor ou período, oferecendo uma leitura mais detalhada da dinâmica climática da cidade. Com isso, gestores públicos podem identificar rapidamente onde estão as maiores fontes de emissão e avaliar o efeito de medidas como mudanças na mobilidade, eficiência energética ou intervenções urbanas.

Na prática

Em 2021, Dijon foi uma das 100 cidades europeias selecionadas pela Comissão Europeia para liderar uma corrida rumo à neutralidade climática até 2030, no âmbito da iniciativa europeia NetZeroCities. A cidade francesa tinha um plano climático ambicioso, mas não dispunha de uma forma precisa de medir suas emissões. Foi aí que a Everimpact entrou.

Em fevereiro de 2022, a startup instalou 75 sensores de CO₂ pela cidade. Combinados com dados de satélite, vento e modelos de IA, os sensores permitem atribuir cada emissão à sua fonte – mobilidade, indústria, edifícios e gestão de resíduos. Assim, Dijon se tornou a primeira cidade do mundo a monitorar simultaneamente, e em tempo real, qualidade do ar e emissões de carbono em escala urbana. 

Hoje, a plataforma da empresa mede cerca de 800 mil toneladas de CO₂ emitidas anualmente na cidade, oferecendo aos gestores públicos uma base concreta para avaliar políticas climáticas locais e buscar financiamento para projetos de descarbonização.

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Sun Ice Energy
Singapura

Foto:  MARIE BRUNEL

Não é só a temperatura média do planeta que vem subindo. Conforme as ondas de calor se intensificam e a demanda por ar-condicionado dispara, manter ambientes refrigerados fica cada vez mais caro – para o bolso e para o planeta, já que quando o consumo elétrico urbano sobe, sobem também as contas de luz e as emissões. 

Criada em Singapura – onde o resfriamento já responde por cerca de 30% de toda a eletricidade do país –, a Sun Ice Energy propõe uma saída inusitada para esse desafio: usar o sol para fabricar gelo durante o dia e deixar esse gelo derreter devagar para refrigerar ambientes à noite.

Na prática

Durante o dia, painéis solares fornecem a eletricidade que congela um material de mudança de fase (ou PCM, do inglês phase change material), uma substância projetada para armazenar grandes quantidades de energia ao alternar entre os estados sólido e líquido, do mesmo jeito que um cubo de gelo absorve calor do ambiente enquanto derrete. À noite ou em períodos sem sol, esse material descongela aos poucos, liberando o “frio” acumulado para manter a temperatura interna estável, sem necessidade de baterias ou de energia da rede.

Em testes feitos pela Sun Ice, 3 a 4 horas diárias de exposição solar foram suficientes para refrigerar ambientes por 24 horas, reduzindo a dependência de redes elétricas ou geradores convencionais. 

Segundo a empresa, a tecnologia pode ser integrada a edifícios, contêineres modulares e outras infraestruturas urbanas, oferecendo controle de temperatura e umidade com menor consumo energético e sem emissões diretas.

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Kumulus
França/Tunísia

Em 2019, durante uma viagem ao deserto tunisiano, o engenheiro Iheb Triki acordou com o saco de dormir encharcado de orvalho. Ali, em uma das regiões mais áridas do norte da África, a umidade do ar havia se condensado durante a noite e formado litros de água sobre a superfície da barraca. A partir dessa observação, nasceu a ideia de criar a Kumulus, uma empresa que desenvolve equipamentos que extraem água potável diretamente da umidade do ar, em qualquer lugar onde haja eletricidade.

A questão de fundo é grave: cerca de 2,1 bilhões de pessoas ainda não têm acesso à água potável gerida com segurança no mundo, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do UNICEF. Mesmo em áreas urbanas, redes centralizadas seguem vulneráveis a falhas e eventos climáticos extremos, como secas e enchentes.

Na prática

A tecnologia funciona como um desumidificador sofisticado: o aparelho captura o ar ambiente, resfria-o até o ponto de condensação e transforma a umidade em água líquida. Esse volume passa por um sistema de filtragem de quatro estágios, é esterilizado e mineralizado antes de chegar ao copo. 

A Kumulus já instalou seus equipamentos em escritórios, escolas, espaços públicos e canteiros de obras na Europa, no norte da África e no Oriente Médio.

Em parceria com a Fondation Orange, por exemplo, a empresa levou a tecnologia para Bayadha, vilarejo isolado no noroeste da Tunísia, perto da fronteira argelina, onde os moradores precisavam caminhar vários quilômetros para acessar água potável – escassez que, segundo a equipe da escola local, contribuía para a baixa frequência escolar das crianças. 

Em dezembro de 2024, três geradores foram instalados na escola primária. Em sete meses de operação, produziram entre 20 e 30 litros de água por dia, evitando 3.243 kg de plástico e 1.027 kg de emissões de CO₂. Hoje, os equipamentos servem centenas de alunos e funcionários, e algumas crianças levam água de volta para casa, para suas famílias.

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Apesar de operarem em áreas distintas – energia, dados, água, resíduos —, essas cinco soluções compartilham uma lógica parecida: produzir, monitorar ou reaproveitar recursos no próprio território, em vez de depender de redes longas e centralizadas. Elas não substituem políticas públicas nem infraestrutura de larga escala, mas apontam para um modelo em que as cidades desperdiçam menos e aproveitam melhor o que já está disponível localmente.

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Redação A Economia B

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