Entre 338 trabalhos inscritos na 8ª edição do Prêmio MapBiomas, projetos vencedores usaram imagens de satélite para priorizar resgates em enchentes, investigar a relação entre garimpo e malária e monitorar ameaças a florestas e territórios indígenas
À primeira vista, décadas de imagens de satélite podem parecer apenas um enorme arquivo sobre as transformações do território. Nas mãos das pessoas certas, porém, elas ajudam a decidir onde agir, o que investigar e quem proteger.
Mas para que isso aconteça, os dados precisam estar organizados, ser comparáveis ao longo do tempo e permanecer acessíveis a quem pode colocá-los em uso. É aí que entra o MapBiomas.
Formado por universidades, organizações da sociedade civil e empresas de tecnologia, o MapBiomas é uma rede global e multi-institucional que monitora as transformações na cobertura e no uso da terra e os impactos dessas mudanças. Ao reunir séries históricas e informações sobre desmatamento, queimadas, recursos hídricos, agricultura e mineração, a rede permite identificar quais áreas estão mais suscetíveis a inundações, onde o desmatamento avança e exige fiscalização e como a perda ou a conservação da floresta afeta os sistemas alimentares de comunidades amazônicas.
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Do satélite às decisões
Em todo o Brasil, pesquisadores, agentes públicos, professores, empresas e comunidades tradicionais vêm aplicando essas informações em áreas tão diferentes quanto gestão de desastres, saúde pública, fiscalização ambiental, educação e proteção territorial. Segundo o MapBiomas, os dados produzidos pela rede já foram utilizados em mais de 5.500 artigos científicos, além de teses, relatórios técnicos e outras aplicações.
No início de julho, parte dessa comunidade se reuniu no 2º MapBiomas User Summit. O encontro promoveu a troca de experiências entre usuários e produtores dos dados, com debates sobre comunicação científica, inovação tecnológica e aplicações práticas do MapBiomas.
Durante o evento, foram anunciados os vencedores da 8ª edição do Prêmio MapBiomas. Entre os 338 trabalhos inscritos, dez foram premiados e outros quatro receberam menções honrosas. As iniciativas abrangem desde pesquisas acadêmicas e aplicações em escolas até negócios, políticas públicas, combate ao desmatamento e a atuação de povos e comunidades tradicionais.
Enquanto os números ajudam a dimensionar o alcance da rede, os projetos premiados mostram como os dados se transformam em decisões concretas no território.
Quando a informação ajuda a salvar vidas

Em Rio Branco, no Acre, o número de pedidos de socorro aumenta rapidamente quando o rio atinge níveis críticos, enquanto as equipes disponíveis continuam limitadas. Decidir qual chamado atender primeiro pode determinar quem receberá ajuda a tempo.
Tradicionalmente, o Corpo de Bombeiros Militar do estado priorizava os atendimentos considerando a ordem dos chamados, o histórico de inundações em cada bairro e as condições de vulnerabilidade informadas pelas famílias.
O projeto Do mapa à decisão, vencedor da categoria Emergência Climática, acrescentou um novo elemento a essa análise: as características do território.
A partir de programas de simulação de desastres hidrológicos e do módulo de risco climático do MapBiomas, as equipes passaram a identificar quais regiões estavam mais suscetíveis à inundação e a incluir essa informação na definição das prioridades.
Segundo os responsáveis pela iniciativa, o efeito foi percebido rapidamente. As famílias passaram a repetir menos os pedidos de ajuda, a insatisfação diminuiu e as equipes conseguiram direcionar os atendimentos para as áreas mais críticas.
“A gente conseguiu de fato salvar vidas e patrimônios com a aplicação das informações do MapBiomas”, afirmou o capitão Roger Santos, do Corpo de Bombeiros Militar do Acre.
Fiscalizar bilhões sem visitar cada propriedade
A cada ano, milhões de operações financiam atividades agropecuárias espalhadas por todo o território nacional, muitas delas em regiões remotas. Verificar presencialmente se os recursos foram aplicados na área e na atividade informadas seria inviável nessa escala.
Desenvolvido pelo Tribunal de Contas da União (TCU), o Projeto Panoptes, vencedor da categoria Aplicações em Políticas Públicas, encontrou uma forma de fazer essa primeira triagem a distância. A iniciativa combina imagens de satélite, inteligência artificial e diferentes bases do MapBiomas para monitorar operações que movimentam cerca de R$ 605 bilhões por ano.
O sistema associa os registros dos financiamentos às áreas rurais indicadas nos contratos e compara essas informações com o que as imagens e os mapas mostram no território. Assim, consegue sinalizar casos que merecem uma fiscalização mais detalhada, como indícios de que os recursos foram usados em uma área diferente da informada ou em desacordo com restrições socioambientais.
Em vez de tentar visitar todas as propriedades, os auditores podem concentrar esforços nas operações que apresentam maior risco. Segundo o TCU, o projeto já foi aplicado à fiscalização de mais de 422 mil imóveis rurais e apontou indícios de irregularidades em operações que somam R$ 29,7 bilhões.
Floresta em pé também é alimento

O trabalho vencedor da categoria Geral investigou a relação entre a conservação da floresta e a alimentação de quem vive nela.
Liderado por André Pinassi Antunes, da RedeFauna e do ICMBio, o estudo Healthy forests safeguard traditional wild meat food systems in Amazonia reuniu um banco de dados construído ao longo de mais de dez anos sobre o manejo da caça por povos indígenas, comunidades tradicionais e pequenos agricultores.
Em muitas áreas rurais amazônicas, onde o acesso a outras fontes de carne é limitado, a caça e a pesca são essenciais para a alimentação. De acordo com a pesquisa, a carne de caça pode, sozinha, suprir quase metade das necessidades de proteína e ferro dessas populações.
Ao cruzar essas informações com dados espaciais, os pesquisadores identificaram que a disponibilidade de carne de caça diminui em áreas degradadas. A perda da floresta, portanto, não ameaça apenas a biodiversidade: também compromete sistemas alimentares e pode ampliar a insegurança nutricional.
Em vez de apresentar o resultado somente pelo lado da destruição, a equipe escolheu destacar a resposta possível. “Quanto mais floresta, mais carne de caça disponível”, resumiu Antunes. Para o pesquisador, construir a mensagem a partir do que ainda pode ser protegido também é uma forma de manter a esperança e a disposição para agir.
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O caminho entre o garimpo e a malária
A relação entre transformação ambiental e saúde também apareceu no segundo colocado da categoria Geral.
Liderada por Márcia C. Castro, da Harvard T.H. Chan School of Public Health, a pesquisa analisou os efeitos da mineração sobre a incidência de malária na Amazônia brasileira e na Terra Indígena Yanomami.
Cientes de que a retirada da cobertura vegetal e a abertura de áreas para o garimpo criam condições favoráveis à reprodução do mosquito transmissor da doença, os pesquisadores queriam compreender também como o deslocamento dos garimpeiros influenciava a disseminação dos casos. Para isso, cruzaram informações sobre mineração, notificações de malária e mobilidade entre diferentes regiões. A análise ajudou a explicar por que a doença aumentou até mesmo em polos-base onde não havia garimpo – alguns deles estavam localizados nas rotas utilizadas pelos garimpeiros.
O estudo mostra como dados ambientais podem ser combinados com informações de saúde e deslocamento populacional para compreender problemas que não respeitam as divisões tradicionais entre setores do poder público.
Ciência indígena para proteger o território

A 8ª edição do Prêmio MapBiomas também marcou a estreia da categoria Povos e Comunidades Tradicionais, criada para reconhecer trabalhos desenvolvidos com a participação de povos indígenas, quilombolas e outras comunidades que conhecem e monitoram seus territórios por dentro.
O primeiro projeto premiado na categoria foi Ciência Indígena e Monitoramento Territorial Frente à Expansão Agrícola na TI Wawi, Leste Xingu, desenvolvido por Gaibetitanica Suya e Ricardo Abad, da Associação Terra Indígena Xingu e do Instituto Socioambiental.
A iniciativa combina imagens de satélite, monitoramento com drones e o conhecimento tradicional do povo Kĩsêdjê para acompanhar as transformações no entorno da Terra Indígena Wawi, no Mato Grosso.
Os dados registram o avanço das áreas agrícolas no município de Querência e, ao mesmo tempo, evidenciam o papel desempenhado pelas terras indígenas na manutenção da floresta. O MapBiomas Alerta, plataforma pública que consolida, valida e refina alertas de desmatamento com imagens de satélite de alta resolução, também apoia as equipes que atuam diretamente no território, ajudando-as a localizar e verificar novos focos de perda de vegetação.
“Quando a gente defende o território indígena, a gente defende a vida”, afirmou Gaibetitanica no vídeo apresentado durante a cerimônia de premiação.
Dados para fiscalizar, recuperar e ensinar

Fiscalização orientada por evidências
Em Pernambuco, o desafio era fazer a fiscalização ambiental alcançar um território extenso e distante da sede da Agência Estadual de Meio Ambiente.
Vencedora da categoria Combate ao Desmatamento, a Operação Caatinga Resiste utiliza alertas do MapBiomas para identificar as áreas prioritárias antes de enviar as equipes a campo. Os dados são cruzados com informações do Cadastro Ambiental Rural, autorizações para supressão de vegetação e áreas consideradas importantes para a biodiversidade.
A iniciativa mudou a maneira como o órgão planeja suas operações e reduziu deslocamentos pouco eficientes. Em vez de percorrer grandes distâncias sem saber exatamente onde concentrar esforços, os fiscais chegam ao campo com alvos definidos a partir das evidências disponíveis.
Recuperar pastagens sem abrir novas áreas
No setor privado, o Programa REVERTE, da Syngenta, foi reconhecido por usar o módulo de pastagens degradadas para identificar propriedades que poderiam recuperar essas áreas e convertê-las em terras agrícolas produtivas, reduzindo a pressão pela conversão de novas áreas de vegetação nativa.
Segundo os responsáveis, cerca de 400 fazendas participam do programa, que alcança aproximadamente 283 mil hectares. O projeto combina análise de dados, assistência agronômica e mecanismos financeiros para apoiar os produtores durante a recuperação.
Mapas chegam à sala de aula
Em Coroatá, no Maranhão, estudantes do primeiro ano do ensino médio analisaram dados reais sobre queimadas nos diferentes biomas brasileiros. Depois, relacionaram os resultados ao uso da terra e às atividades humanas e transformaram as informações em mapas mentais e apresentações para a comunidade escolar.
A experiência, conduzida pelo professor André Wallace Balica Honorato, venceu a categoria Aplicações em Escolas. O projeto mostra que informações científicas abertas podem ajudar adolescentes a compreender o território de maneira mais crítica, sem que a educação ambiental fique restrita a conceitos abstratos.
Jovens pesquisadores, novas perguntas
Na categoria Jovem, o primeiro lugar ficou com Diogo Ramos Pacheco, da Universidade Federal de Santa Catarina. O pesquisador analisou insetos aquáticos em dez riachos do Parque Nacional de São Joaquim e de seu entorno para entender como campos e florestas influenciam a biodiversidade em diferentes escalas.
Os resultados mostraram que os dois ambientes são importantes para a manutenção dessas comunidades e que conservar os riachos exige olhar além de suas margens imediatas, considerando o mosaico de campos e florestas ao redor.
O segundo lugar foi concedido a Eduarda Vaz Braga, da Universidade Estadual da Região Tocantina do Maranhão, e seus colaboradores. O grupo analisou a dinâmica do fogo entre 2001 e 2020 em 25 unidades de conservação localizadas no Maranhão, na transição entre a Amazônia e o Cerrado.
Ao mapear a área queimada, a recorrência do fogo e sua relação com o uso da terra, o estudo identificou períodos críticos e mostrou que pressões humanas locais continuam influenciando os incêndios mesmo dentro de territórios legalmente protegidos.
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doClima no MapBiomas User Summit

João Guilherme Brotto, jornalista e cofundador da doClima, também participou do MapBiomas User Summit.
Durante a sessão Monitoramento e Gestão de Riscos Climáticos, ele mostrou como a doClima incorpora as séries históricas do MapBiomas às análises das transformações de cada município.
“Os dados nos ajudam a entender, município por município, o que aconteceu com a vegetação nativa, onde houve desmatamento ou regeneração, onde estão as áreas mais vulneráveis nas cidades e como avança a agropecuária”, explicou.
“Essas informações são então cruzadas com dados sobre riscos climáticos, emissões, desastres, clima observado e cenários futuros, com o objetivo de mostrar não apenas como o território mudou, mas também como essas transformações se relacionam com as vulnerabilidades e os desafios climáticos enfrentados por cada cidade”, completou.
As análises apoiam projetos que fortalecem a cobertura climática da imprensa e iniciativas de adaptação desenvolvidas por governos e organizações. “A gente ‘traduz’ e facilita a ciência climática”, resumiu João.
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O dado aberto é o começo, não o fim
Juntos, os projetos vencedores da oitava edição do Prêmio MapBiomas mostram que disponibilizar informações é apenas o início do processo. Os dados não deslocam sozinhos uma equipe de resgate, interrompem um desmatamento ou protegem uma comunidade. A transformação acontece quando esses dados chegam a bombeiros, professores, pesquisadores, auditores, agentes ambientais e populações que conhecem os territórios e conseguem transformar informação em escolhas concretas.
Durante a premiação, Sônia Bridi pediu que os pesquisadores procurassem os jornalistas e contassem as histórias existentes por trás de seus trabalhos. A ciência pode revelar problemas e indicar respostas, mas precisa encontrar caminhos para chegar ao debate público. Transformar informação em ação também exige transformá-la em histórias que a sociedade consiga compreender e usar.
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