Cultura Climática

Os 9 ingredientes da comunicação climática que funciona

Os 9 ingredientes da comunicação climática que funciona
Por que algumas mensagens sobre mudanças climáticas conseguem mobilizar milhões de pessoas enquanto outras, mesmo apoiadas pela melhor ciência disponível, passam despercebidas?

Enquanto os alertas climáticos se tornam mais frequentes, essa é uma pergunta que ganha ainda mais relevância. Afinal, apesar de décadas de pesquisas, relatórios e evidências científicas, o mundo continua se aproximando dos piores cenários climáticos.

Para pesquisadores do Stockholm Resilience Centre – instituto responsável pelo conceito dos limites planetários, formulado em 2009 pelo climatologista Johan Rockström e pares –, o problema não está apenas na produção de conhecimento, mas também na forma como o conhecimento é comunicado. O Planetary Communications Handbook tem o objetivo de ajudar a resolver esse problema. 

Produzido com o apoio de mais de 100 pesquisadores, comunicadores e profissionais criativos, o material parte da constatação de que ciência de qualidade, sozinha, não garante transformação social.

Em vez de buscar uma fórmula única para falar sobre clima, o manual propõe um modelo baseado em nove ingredientes que podem ser combinados de diferentes formas conforme o público, o contexto e o objetivo da mensagem. A metáfora utilizada pelos autores é a de um equalizador de som: todos os elementos são importantes, mas nem todos precisam estar no volume máximo o tempo todo.

O modelo inverte a lógica dos limites planetários, o conceito que deu projeção internacional ao Stockholm Resilience Centre. Lá, a meta é não ultrapassar nove limites que mantêm o planeta estável. Aqui, é o contrário: cada um dos nove ingredientes precisa atingir um patamar mínimo para que a comunicação funcione.

Os nove são: ser factual, simplificar, escolher o momento certo, conectar a outros temas sociais, inspirar ação coletiva, destacar soluções, navegar pelas emoções, tornar pessoal e visualizar. Juntos, eles se organizam em três qualidades maiores – uma comunicação confiável, próxima e relevante.

É aqui que entra a imagem do equalizador. Os nove ingredientes funcionam como os controles deslizantes de uma mesa de som: estão sempre lá, mas o ajuste muda conforme a música. Uma campanha para gestores públicos sobe os controles de dados, evidências e conexão econômica. Uma iniciativa voltada a jovens pede mais emoção, identificação e recursos visuais. Não existe ajuste único, existe o ajuste certo para cada público, canal e contexto.

Os 9 ingredientes da comunicação climática que funciona

Para mostrar o modelo funcionando na prática, o manual reúne nove iniciativas, uma para cada ingrediente.

Três delas mostram o lado mais rigoroso da comunicação climática: 

O Global Carbon Project, liderado pela Future Earth, ilustra o ser factual: publica todo ano um balanço global de carbono com metodologia aberta e incertezas declaradas, virando referência para jornalistas e governos sem apelar para exagero. 

A Carbon Law, também criada por Rockström e seus pares, ilustra o simplificar: condensa anos de ciência climática numa regra simples – cortar as emissões pela metade a cada década até zerar por volta de 2050. 

Os relatórios anuais 10 New Insights in Climate Science, lançados sempre durante as COPs, ilustram o escolher o momento certo: chegam quando a atenção do mundo já está voltada para o clima.

Outras três mostram como ancorar o clima na vida das pessoas. 

Para conectar a outros temas sociais, o handbook destaca o trabalho do IPBES (o painel científico da ONU sobre biodiversidade) sobre o declínio dos insetos, que pôs um preço na natureza: a perda de polinizadores ameaça entre US$ 235 e US$ 577 bilhões da produção agrícola mundial por ano. 

Para inspirar ação coletiva, o River Cleanup, iniciativa de origem belga que começou com um desafio de dez minutos para recolher lixo e hoje reúne 288 mil pessoas em 101 países.

E para destacar soluções, o Seeds of Good Anthropocenes, que cataloga centenas de iniciativas sustentáveis já em funcionamento pelo mundo, contra a ideia de que só resta o pessimismo.

Entre os casos, há três que se destacam porque mostram como comunicar clima vai além de divulgar dados.

Foto: Jeanette Andersson

Em 2025, a banda indie sueca Bob Hund, em parceria com o centro de pesquisa PLATE, transformou sua turnê de despedida em um experimento: um caminhão que servia “refeições resilientes”, pensadas para tornar a comida saudável e sustentável desejável e divertida. O “punk stew” era um dos pratos. O food truck passou pelo festival Way Out West, com 78 mil pessoas, e pelo show de despedida da banda, para 18 mil fãs em Estocolmo.

Por trás da brincadeira há um cálculo sobre o que faz uma mensagem climática funcionar. Martin Kann, diretor criativo da Bob Hund, explica: “a transformação não funciona se a gente se leva a sério demais. É preciso humor e seriedade ao mesmo tempo, preocupação suficiente para agir, mas não tanto medo a ponto de as pessoas travarem”.

É essa dosagem que o handbook tem em mente ao descrever a Bob Hund como uma “tradutora cultural”, capaz de converter ciência em algo emocionalmente acessível.

Para muitas pessoas, mudança climática é um problema abstrato – planetário, futuro, difícil de sentir como próprio. Tornar pessoal é o ingrediente que combate essa distância, e poucas histórias fizeram isso de forma tão eficaz quanto a de Greta Thunberg.

O handbook chama de “efeito Greta Thunberg” um fenômeno que pesquisadores conseguiram medir: pessoas mais familiarizadas com a ativista sueca passam a acreditar mais que indivíduos comuns, agindo juntos, fazem diferença – e, por isso, têm mais intenção de agir. O efeito aparece em todas as faixas etárias e em todo o espectro político, provando que mais do que o argumento, é o rosto que convence.

Como contraponto latino-americano, o handbook traz a chilena Julieta Martínez, ativista de clima e igualdade de gênero que construiu um movimento pela América Latina e o Caribe. Começou aos 14 anos e em 2026 recebeu o prêmio sueco WIN WIN Youth Award. Greta e Julieta mostram, em contextos diferentes, que uma causa global ganha força quando passa a ter rosto, nome e história.

Criado pela gigante de auditoria e consultoria EY, Dear Economy é uma experiência parte drama, parte escape room: o participante entra num cenário de economia em colapso para depois imaginar outra, dentro dos limites planetários. 

“Foi só ao mostrar às pessoas uma economia em ruínas que elas aceitaram que outra seria possível”, explica Tove Blomgren, líder criativa do projeto. O caso ilustra uma das mensagens centrais do handbook: nem sempre as pessoas precisam de mais informação. Às vezes, precisam de novas formas de experimentar uma ideia.

The no home Jersey – Ilhas Marshall – Uma camisa que desaparece para proteger o país do mesmo fim – O que a boa comunicação climática tem em comum

Embora os nove ingredientes sejam diferentes entre si, o handbook sugere que todos compartilham o objetivo comum de aproximar a sustentabilidade da vida cotidiana.

O vocabulário do handbook ajuda a enxergar isso em iniciativas que a doClima já cobriu.

A Disappearing Jersey, das Ilhas Marshall, usa o esporte para falar da elevação do nível do mar – visualizar e tornar pessoal ao mesmo tempo. O app satírico Oilwell aposta no humor para navegar pelas emoções. Os jogos Clima Tenso e Emergência Climática inspiram ação coletiva ao colocar o jogador para decidir. E o Curriculum of Hope, das escolas britânicas, combina destacar soluções e navegar pelas emoções na sala de aula. 

Talvez seja justamente aí que esteja uma das contribuições mais interessantes do Planetary Communications Handbook. Em vez de oferecer uma fórmula pronta para comunicar sustentabilidade, ele fornece um vocabulário para compreender por que algumas iniciativas conseguem mobilizar pessoas enquanto outras não.

E, nesse sentido, dialoga diretamente com conceitos como o hopepunk, que defende uma comunicação capaz de reconhecer a gravidade da crise climática sem abrir mão da esperança, da ação coletiva e da construção de futuros desejáveis.

No fundo, o manual propõe uma mudança de perspectiva. Em vez de perguntar apenas como comunicar melhor a ciência, os autores sugerem uma questão diferente: como fazer com que as pessoas se reconheçam dentro da história que a ciência está tentando contar?

A resposta não passa por abandonar os fatos nem substituir evidências por emoção, mas por encontrar combinações capazes de transformar conhecimento em compreensão, compreensão em engajamento e engajamento em ação.