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Tóquio libera bermuda e camiseta no trabalho para enfrentar o calor

Calor extremo está reescrevendo o dress code de Tóquio
Foto de Egor Myznik na Unsplash

No ano passado, o Japão atravessou o verão mais quente desde o início dos registros, em 1898. Temperaturas de 40°C ou mais ficaram tão frequentes que a agência meteorológica do país criou uma designação oficial para esses dias: kokushobi, algo como “dia de calor cruel”. Nesse cenário, o governo de Tóquio decidiu mexer em algo que parecia intocável: a roupa que se usa para trabalhar.

Servidores públicos da capital japonesa podem aparecer de camiseta e tênis no escritório e, dependendo da função, até de bermuda – algo inédito por lá. É, inclusive, uma recomendação oficial, parte de uma estratégia para enfrentar o calor extremo e aliviar a pressão sobre o sistema de energia. Além de ter liberado os próprios funcionários, o governo metropolitano está incentivando as empresas a seguirem o mesmo caminho.

A medida lembra o “casual Friday” que algumas empresas brasileiras adotam às sextas-feiras para deixar a equipe mais à vontade, mas o motivo é outro. Em Tóquio, vestir-se de forma mais leve deixou de ser uma cortesia ao funcionário para virar política de adaptação climática.

A iniciativa faz parte do Tokyo Cool Home & Biz, campanha criada em 2022 pelo governo local dentro da estratégia HTT – sigla, em japonês, para reduzir, gerar e armazenar eletricidade. 

O programa amplia a tradicional campanha nacional Cool Biz, lançada pelo governo do país em 2005 para incentivar trabalhadores a dispensarem gravatas e paletós durante o verão e reduzirem o uso excessivo de ar-condicionado nos escritórios. 

A diferença entre as duas campanhas conta uma história, e ela tem a mesma protagonista. Yuriko Koike criou o Cool Biz em 2005, quando era ministra do Meio Ambiente, e hoje, como governadora de Tóquio, comanda a versão ampliada. Em 2005, a campanha mexia só no guarda-roupa: menos paletó e gravata, ar-condicionado regulado um pouco mais alto. A versão de 2026 vai além da roupa. O governo passou a tratar o calor como uma questão de rotina inteira, e recomenda também teletrabalho e expediente começando mais cedo, para escritórios menos dependentes de refrigeração.

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Mexer em roupa e até em horário de trabalho é mexer no que cada cultura considera “adequado”, “confortável” e também “profissional”. Portanto, ao tratar o que se veste no escritório como questão de energia e clima, Tóquio ajusta a infraestrutura e, ao mesmo tempo, renegocia expectativas sociais que pareciam fixas.

A pergunta que essa história levanta não fica do outro lado do mundo. No Brasil, onde o calor já é estrutural e a rede elétrica já apanha nos picos de verão, que códigos de vestimenta e que rotinas de trabalho vamos precisar rever? 

Enfrentar as mudanças climáticas pode exigir não apenas novas tecnologias e investimentos, mas também a revisão de costumes e normas sociais que pareciam permanentes até pouco tempo atrás.

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