Campanha transforma urina humana em adubo e apresenta uma alternativa aos fertilizantes fósseis que pesam tanto no clima como no prato
Durante uma partida de futebol, milhares de torcedores passam pelos banheiros do estádio. É uma cena banal, que se repete em todo jogo. O que talvez pouca gente imagine é que o que acontece ali poderia contribuir com a luta contra as mudanças climáticas.
O contexto
Cerca de metade da comida do mundo depende de fertilizantes sintéticos, feitos principalmente a partir de combustíveis fósseis. Acontece que a urina humana contém os mesmos nutrientes desses fertilizantes. É aí que entra a ideia de aproveitá-la.
Na Suécia, o clube de futebol Malmö FF, a empresa de alimentos Oatly, a Universidade Sueca de Ciências Agrárias (SLU) e a organização Sanitation360 lançaram a iniciativa Pee for the Planet (“Faça xixi pelo planeta”, em tradução livre). O que se quer provar é que um resíduo descartado todos os dias pode virar fertilizante e, com isso, aliviar parte do peso climático e econômico dos fertilizantes sintéticos.
Pee for the Planet
Ao longo da temporada de 2026 do campeonato sueco, o xixi feito nos banheiros do Eleda Stadion, em Malmö, foi recolhido por mictórios e vasos adaptados, instalados dentro e fora da arena, para testar se poderia virar um fertilizante circular e seguro. A meta era reunir mil litros nesta fase piloto.
A escolha do estádio não foi casual: uma arena com milhares de torcedores bebendo cerveja é, nas palavras da campanha, o “microcosmo perfeito” para testar a coleta de urina em larga escala.
Do torcedor não se exige nada além de ir ao banheiro como sempre. A urina coletada é desidratada em contêineres fechados e misturada a subprodutos da produção da bebida de aveia da Oatly. O resultado são pequenos grânulos secos, batizados de Granurin – um formato sólido escolhido justamente porque se aproxima dos fertilizantes que os agricultores já sabem manusear. Nesta etapa, os grânulos servem para os testes de campo da SLU, que avaliam a composição de nutrientes e a segurança do produto antes de qualquer uso em escala.
Um fertilizante menos danoso ao clima e que não é refém da geopolítica
O problema que a iniciativa quer atacar tem números concretos. A indústria global de fertilizantes nitrogenados sintéticos emite mais de 1,13 bilhão de toneladas de dióxido de carbono equivalente (CO₂e) por ano – cerca de 2,1% das emissões globais e algo em torno de 11% das emissões da agricultura, segundo dados reunidos pela campanha. É 23% mais do que tudo o que o setor da aviação lança na atmosfera.
Essa dependência também tem um lado geopolítico que ficou exposto este ano. Desde 28 de fevereiro, a guerra entre Irã, Israel e Estados Unidos interrompeu o tráfego de navios pelo Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um terço do comércio marítimo mundial de fertilizantes. Os preços dispararam, e quando o fertilizante encarece ou some das prateleiras, a conta chega à produção de alimentos.
A ONU estima que 45 milhões de pessoas estejam sob risco de fome aguda em decorrência do conflito no Oriente Médio, à medida que a alta dos fertilizantes ameaça a segurança alimentar em alguns dos países mais pobres do mundo.
É aí que a urina deixa de ser desperdício e vira aposta.
O ganho ambiental é mensurável – estudos apontam que fertilizantes derivados de urina consomem de 26% a 41% menos energia que os sintéticos, justamente por dispensarem a etapa fóssil da produção – e ainda não depende de navio nem de gás importado para chegar às plantações.
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Da maratona ao mictório: o caso britânico

No Reino Unido, a startup NPK Recovery, sediada em Bristol, faz algo parecido, mas com foco em grandes eventos. Na Maratona de Londres de 2025, em parceria com a PEEQUAL, empresa que fabrica mictórios femininos, a NPK recolheu mil litros de urina na largada e os transformou em fertilizante para ensaios com trigo.
Para se ter ideia da escala, segundo a startup, mil litros rendem o suficiente para fertilizar trigo equivalente a cerca de 195 pães. A própria NPK calcula que, se toda a urina dos mais de 53 mil corredores que cruzaram a linha de chegada em 2024 fosse reaproveitada, daria para fazer mais de 3 mil pães.
O sistema da NPK é modular e transportável, se conecta aos banheiros do evento e usa bactérias para converter os nutrientes da urina em uma forma assimilável pelas plantas. O produto passa por filtragem, tratamento térmico e concentração – etapas que removem patógenos e excesso de água – antes de virar fertilizante.
Em ensaios conduzidos pela Royal Agricultural University (RAU), com financiamento da agência pública Innovate UK, o fertilizante da NPK igualou o desempenho do nitrato de amônio – um dos sintéticos mais usados – no cultivo de trigo, sem deixar resíduos tóxicos no solo.
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Os desafios que vão além da tecnologia
Antes de chegar ao uso em escala, porém, os fertilizantes feitos a partir de urina humana precisam vencer obstáculos que não são técnicos.
O primeiro é cultural.
O uso de esterco animal como fertilizante é amplamente aceito em diversas partes do mundo. Já a reutilização da urina humana ainda esbarra no que a própria campanha Pee for the Planet chama de “fator nojo”: o desconforto de reaproveitar um resíduo do corpo, mesmo quando o tratamento atende aos requisitos sanitários.
O segundo obstáculo é econômico.
Na Suíça, a startup VunaNexus já vende o Aurin, que descreve como o único fertilizante mineral feito inteiramente de urina humana certificado no mercado, aprovado para uso em todas as plantas pelas autoridades suíças e francesas. Ainda assim, em uma estação de tratamento pequena, produzir um quilo de nitrogênio a partir da urina custa de 40 a 50 vezes mais do que o sintético, segundo o CEO da empresa, David de Chambrier.
Em entrevista ao jornal britânico The Guardian, Chambrier afirmou que a tecnologia só ficará competitiva quando ganhar escala e quando o tratamento da urina passar a ser remunerado como o serviço de saneamento que é.
A verdade é que nenhuma dessas iniciativas vai, sozinha, substituir os fertilizantes da agricultura moderna, mas projetos como o Pee for the Planet ajudam a demonstrar que algumas soluções para desafios ambientais podem ser mais simples do que imaginamos. Basta “ouvir a natureza chamar”.





