Movimento britânico defende uma educação climática que combine informação, acolhimento emocional e ação coletiva, e apresenta ferramentas e histórias que podem inspirar professores brasileiros a seguir o mesmo caminho
As escolas sempre foram espaços de preparação para o futuro. É ali que crianças e adolescentes aprendem a conviver com as diferenças, a trabalhar em grupo, a conhecer e interpretar o mundo e a desenvolver habilidades que levam para a vida toda. Mas, diante da crise climática, essa missão ganhou novos contornos. O futuro para o qual os estudantes estão sendo preparados não é o mesmo que lhes foi prometido. Jovens convivem cada vez mais com sentimentos como medo, frustração e incerteza, enquanto professores se veem desafiados a abordar um tema complexo para o qual muitos não receberam formação.
A campanha britânica Climate Courage Schools (em tradução livre, Escolas com Coragem Climática) nasce dessa tensão.
Lançada pelo Climate Majority Project – uma coalizão de professores, estudantes, pesquisadores e profissionais de saúde mental –, ela propõe que a educação climática deixe de ser tratada como conteúdo extracurricular e passe a ocupar o coração da escola, transformando instituições de ensino em centros de resiliência emocional, adaptação prática e propósito coletivo.
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Os números que justificam a urgência
A escala do problema, no Reino Unido, é grande. Um estudo publicado em 2021 no The Lancet Planetary Health, que ouviu 10 mil jovens entre 16 e 25 anos em dez países, mostrou que 67% dos jovens britânicos dizem que as mudanças climáticas os deixam com medo.
Do lado dos professores, o Rebooting Education Report, publicado em 2023 pela organização Reboot the Future a partir de uma consulta a 6.804 docentes, indicou que 85% dos professores na Inglaterra não confiam que o sistema educacional esteja preparando adequadamente seus estudantes para o futuro.
Por fim, segundo uma pesquisa do Centre for Climate Change and Sustainability Education da UCL, apenas 13% dos professores britânicos receberam algum tipo de formação em clima durante sua preparação para a docência – número que a própria campanha ressalta ser o ‘melhor cenário possível’, já que vem de uma amostra de docentes já engajados com o tema.
Em um contexto brasileiro em que enchentes, ondas de calor, queimadas e deslocamentos forçados já fazem parte da experiência de milhões de crianças e adolescentes, a pergunta que a campanha faz aos britânicos também vale por aqui: como ensinar o futuro quando o futuro já chegou?
O curta The Hardest Lesson (A lição mais difícil), peça de abertura da campanha, encena exatamente essa pergunta. Vale o play antes de seguirmos.
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Do filme à sala de aula: um guia para começar a conversa
The Hardest Lesson foi pensado como uma ferramenta catalisadora de diálogos climáticos honestos em escolas, em casa e em rodas de formação de professores. Para isso, a campanha publicou um guia gratuito de discussão, que parte da premissa de que o próprio filme é, por design, imperfeito. O professor pode parecer despreparado, os alunos podem parecer dispersos – e essas falhas estão ali de propósito, para abrir conversa, não para oferecer um modelo a ser seguido.
A partir daí, o guia organiza as perguntas em camadas, propondo um percurso que vai do pessoal ao coletivo. Começa pelo que cada participante sente ao assistir, passa para uma análise do que acontece entre o professor e os alunos, e em seguida, abre para um debate mais amplo: como a natureza aparece (ou não)? Como as vozes de fora – pais, redes sociais, celebridades – influenciam a conversa?
O guia termina com uma provocação prática, que serve menos como conclusão e mais como ponto de partida: se este filme mostra uma ‘falha’ em como tratamos a crise climática na educação, o que esta sala, agora, pode decidir fazer a respeito?
O material também traz orientações específicas para quem conduz a conversa: abraçar o silêncio depois das perguntas mais difíceis, sem se apressar em preenchê-lo; validar a aparente “apatia” dos alunos, perguntando ao grupo por que uma pessoa pode agir assim quando está sobrecarregada; e sempre terminar transitando do peso emocional do filme para um senso de propósito compartilhado.
É um material simples, traduzível, e que pode ser adaptado para qualquer escola brasileira interessada em quebrar o silêncio sobre o clima.
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Coragem climática na prática
A campanha também reuniu uma série de estudos de caso que mostram que a coragem climática toma formas distintas em cada escola. As quatro que selecionamos vão da política institucional ao pátio da escola – e mostram que coragem climática não tem um único formato.
Quando o clima entra na política de proteção infantil

A Drake Primary School incluiu a crise climática no documento que define os riscos formais à segurança, ao bem-estar e ao acesso à educação dos estudantes. Com isso, os impactos climáticos passaram a ser tratados com o mesmo grau de seriedade institucional que outros riscos à infância.
A decisão veio depois de um processo de formação. A professora Danielle Ware e a especialista em educação ao ar livre Sara Farish, codiretoras de sustentabilidade da instituição, esperavam aprender mais sobre ciência climática, mas não anteciparam o quanto os fatos dariam lugar aos sentimentos. “Eu nunca tinha ouvido falar de ecoansiedade. Mas, quando comecei a estudar a mudança climática, eu mesma comecei a sentir. Passar por essas emoções melhorou minha capacidade de apoiar as crianças, porque eu consigo me identificar com o que elas estão vivendo”, conta Sara.
Em sala, isso se traduz em aulas que ligam o local ao global – a erosão costeira em Norfolk ao lado do que acontece nas Ilhas Salomão, as enchentes nas cidades vizinhas ao lado da elevação do nível do mar –, sempre com espaço para que as crianças nomeiem o que estão sentindo. “Como professoras, temos essas conversas e dizemos: olha, eu acabei de assistir a isso e me senti muito triste, e tudo bem sentir assim.”
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Cartas que viraram conversa com agentes públicos

“Isso aqui é só dever de casa, você nem vai mandar de verdade pra Harriet Baldwin.”
Foi isso que um aluno da professora Sarah Dukes escreveu ao fim de um dos mais de 450 e-mails que a turma redigiu para a deputada local durante uma semana de COP. Dukes mandou. A deputada respondeu e, depois, foi até a escola conversar com os estudantes. “Foi muito potente, porque eles viram, de fato, a carta deles tendo impacto”, afirma.
A tarefa não veio ‘do nada’. Professora de inglês, Sarah descobriu que sua disciplina é ‘meio que um presente’ para a educação climática. Isso porque as aulas de literatura naturalmente abrem espaço para discussões, debates e escrita reflexiva. A semana da COP foi a oportunidade de combinar com colegas que todas as turmas do ensino fundamental II fariam o mesmo dever.
A lição que a professora tira é que o engajamento concreto também é forma de cuidado emocional. Mas a ação precisa ser real, não simbólica. Estudantes percebem rapidamente quando uma tarefa não vai a lugar nenhum.
Um currículo de esperança

Em Oxford, a St Ebbe’s Primary School trata o clima como uma disciplina que atravessa todo o currículo.
As codiretoras Tina Farr e Clare Whyles desenvolveram o que chamam de curriculum of hope (currículo da esperança), estruturado em torno de três valores – curiosidade, coragem e conexão – e de perguntas feitas pelas próprias crianças.
No 2º ano, a turma investiga “De quem é o ar?”, mergulhando em fronteiras, responsabilidade e justiça. No 4º ano, “Temos o poder de mudar o mundo?”. No 5º, os estudantes preparam palestras no estilo TED sobre pequenas ações que importam. Os projetos sempre começam com três Ps – a person (uma pessoa), a place (um lugar), a problem (um problema) –, mas a escola insiste em um quarto: possibilities (possibilidades).
“Reconhecemos os desafios, mas a pergunta seguinte é: o que as pessoas estão fazendo? Especialmente os jovens – o que eles estão fazendo nas próprias comunidades que está fazendo diferença?”, resume Clare.
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Lições que atravessam fronteiras
As três histórias vêm de contextos muito específicos – escolas inglesas, com realidades materiais e curriculares próprias –, mas as ideias por trás delas atravessam fronteiras. Reconhecer o clima como questão de proteção infantil, transformar tarefa de redação em ação política real, organizar o currículo em torno das perguntas que as crianças já estão fazendo são caminhos que cabem em qualquer escola disposta a tentar.
No fim, coragem climática é uma questão de cultura escolar, que exige criar espaços onde estudantes possam dizer que estão com medo, professores possam admitir que não têm todas as respostas e o coletivo possa transformar essa honestidade compartilhada em ação. Como diz o professor do filme, depois de respirar fundo: “é assustador mesmo. Então vamos conversar sobre isso. Juntos.”
Outros recursos da campanha – vídeos, relatórios, materiais para formação de educadores – estão reunidos nesta página (em inglês).
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