Clima

Ondas de calor ficam mais frequentes no Brasil, agravam doenças crônicas e pressionam sistema de saúde

Levantamento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação analisa dez anos de estudos e propõe vigilância climática para antecipar riscos e reduzir internações e mortes evitáveis

Quando foi a última vez que você sentiu tanto calor que achou que não ia aguentar? Provavelmente não faz muito tempo, certo? E é bem provável que nos últimos anos tenha enfrentado episódios de calor intenso com muito mais frequência do que antigamente.

Não, não é impressão sua. As ondas de calor – períodos consecutivos de temperaturas excepcionalmente elevadas – são cada vez mais frequentes e intensas, efeito direto das mudanças climáticas.

Para você ter uma ideia, um estudo publicado na revista científica PLOS ONE analisou dados de 14 regiões metropolitanas brasileiras entre 1970 e 2020 e mostrou que o número de eventos de calor extremo cresceu em todas elas nesse período, com aumento especialmente acentuado na região Norte a partir dos anos 2000.

Além disso, o verão de 2024/2025 foi o mais quente desde 1961, com temperatura média de 26,2°C – quase 0,8°C acima da média histórica. É possível que este ano essa marca seja ultrapassada.

Como se não bastasse o desconforto que as temperaturas mais elevadas causam, esse novo cenário de ondas de calor mais frequentes já impacta diretamente a saúde pública nacional.

Esse é o ponto de partida do relatório Clima em Síntese: Estudos sobre saúde e ondas de calor no Brasil.

Realizado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, o levantamento analisou estudos brasileiros publicados entre 2015 e 2025 e reuniu as evidências mais robustas sobre como as ondas de calor já funcionam como gatilho para o agravamento de doenças cardiovasculares, respiratórias, renais, metabólicas e até transtornos mentais no país, e por que o calor extremo sobrecarrega o sistema de saúde.

Como o corpo reage quando o termômetro dispara

O relatório explica que, em situações de calor intenso e prolongado, o corpo tenta se adaptar aumentando a sudorese e dilatando vasos sanguíneos para dissipar calor. Quando essa compensação falha, surgem quadros como desidratação, desmaio, exaustão térmica e insolação. Nos casos mais graves, essas condições podem evoluir para falência dos órgãos e morte. Na prática, isso significa que o calor extremo empurra o organismo além do limite fisiológico, transformando um estresse ambiental em emergência médica.

Fonte: Estudo “Clima em Síntese: Estudos sobre saúde e ondas de calor no Brasil”

Calor extremo não cria doenças novas, mas agrava as que já lotam o SUS

As ondas de calor agravam doenças já comuns na população brasileira e que representam grande parte das internações no Sistema Único de Saúde (SUS) – como problemas cardíacos como infarto e AVC, doenças respiratórias como asma e DPOC (doença pulmonar obstrutiva crônica), complicações renais ligadas à desidratação, diabetes e outros distúrbios metabólicos, além de impactos na saúde mental como ansiedade, depressão e distúrbios do sono.

O estudo destaca que os efeitos do calor na saúde seguem uma espécie de “escada de gravidade”: começam com manifestações leves, avançam para atendimentos ambulatoriais, evoluem para internações hospitalares e, nos casos mais extremos, resultam em óbitos. É justamente essa progressão que explica por que ondas de calor provocam picos de procura por serviços de saúde mesmo antes de aparecerem nas estatísticas de mortalidade. Na prática, cada evento extremo gera uma onda de atendimentos que pressiona pronto-socorros, ambulatórios e leitos hospitalares – muito antes de os óbitos chegarem aos números oficiais.

O relatório também deixa claro que os impactos não são distribuídos de forma igual na sociedade. Alguns grupos concentram maior risco: idosos, devido à menor capacidade de termorregulação; crianças, especialmente bebês; pessoas com doenças crônicas; trabalhadores ao ar livre, como operários e trabalhadores rurais; e populações em situação de vulnerabilidade social, incluindo moradores de áreas precárias, comunidades indígenas, quilombolas e regiões da Amazônia.

Esses grupos costumam enfrentar uma combinação de fatores de risco: moradias mal ventiladas, pouco acesso à água potável, baixa cobertura vegetal urbana, exposição ocupacional ao sol e dificuldades de acesso a serviços de saúde.

O resultado é que o calor extremo acaba funcionando como um amplificador de desigualdades sociais e territoriais.

Leia também:
Não há desenvolvimento sustentável sem redução das desigualdades (ODS 10)

Como governos podem se organizar para enfrentar ondas de calor

Além de mapear os impactos do calor na saúde, o relatório sugere caminhos para governos se organizarem para lidar com ondas de calor antes, durante e depois dos eventos extremos acontecerem, em um modelo semelhante ao que já existe para epidemias, enchentes e outros desastres naturais. 

Fonte: Estudo “Clima em Síntese: Estudos sobre saúde e ondas de calor no Brasil”

Usar dados para antecipar crises

Na etapa de prevenção, o estudo recomenda que governos utilizem dados meteorológicos históricos, cruzados com registros de mortalidade e internações hospitalares, para identificar padrões locais de risco. Em outras palavras, não basta saber que a temperatura vai subir, é preciso entender a partir de qual patamar o calor começa a gerar impacto real na saúde da população.

Esses chamados “limiares de risco” variam entre regiões e grupos populacionais. Uma temperatura considerada tolerável em uma cidade pode ser perigosa em outra, dependendo de fatores como urbanização, cobertura vegetal, perfil socioeconômico e acesso à saúde. Definir esses pontos críticos permite acionar alertas precoces e preparar a rede de atendimento antes que o problema chegue às portas dos hospitais.

Agir rápido reduz internações e mortes

Quando a onda de calor se instala, o foco passa a ser a mitigação de impactos. O relatório destaca a importância de sistemas de alerta que permitam mobilizar rapidamente serviços de saúde, assistência social e defesa civil.

Na prática, isso envolve reforçar equipes em unidades de pronto atendimento, orientar a população sobre hidratação e redução da exposição ao sol, priorizar o acompanhamento de grupos vulneráveis e adaptar rotinas em escolas, canteiros de obras e atividades ao ar livre. Quanto mais cedo a resposta acontece, menor é a chance de o calor extremo se transformar em internações graves ou mortes.

Avaliar cada onda de calor para melhorar a próxima resposta

Por fim, o trabalho não termina quando a temperatura cai. O estudo recomenda que cada episódio de calor extremo seja analisado para entender o que funcionou e o que falhou. Isso inclui avaliar excesso de atendimentos, internações, aumento da mortalidade e gargalos no sistema de saúde. 

Essas informações ajudam a ajustar protocolos e tornar a resposta pública mais eficiente – algo essencial, já que eventos como esses tendem a se tornar cada vez mais frequentes. 


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Publicado por
Tom Schiebel

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