ODS

Não há desenvolvimento sustentável sem redução das desigualdades (ODS 10)

Imagem: Johnny Miller

Entenda o panorama global do crescimento das desigualdades e saiba como o desequilíbrio socioeconômico impede o progresso do desenvolvimento sustentável

Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 10:

ods 10Este conteúdo faz parte da série Pandemia de Covid-19 e os ODS. Leia todos os artigos sobre o impacto dessa crise na Agenda 2030 aqui

É surreal pensar que enquanto 160 milhões de pessoas foram empurradas para a pobreza extrema durante a pandemia, ao mesmo tempo, a cada dia surgiu um novo bilionário no mundo. Além disso, desde 2020, enquanto a renda de 99% da humanidade caiu severamente, a riqueza dos 10 homens mais ricos dobrou!

É fato que a Covid-19 expôs clara e diretamente o imenso contraste social e econômico presente em todo o globo. Aliás, mais do que isso, ela agravou essas desigualdades. Estimativas apontam que a crise gerada pela pandemia fez com que de três a quatro anos de progresso em relação à erradicação da pobreza fossem perdidos.

Inclusive, a parcela mais vulnerável da população é a que mais sofreu e ainda sofre com as consequências dessa crise. Além disso, também é o grupo com mais dificuldade de se recuperar no pós-pandemia. Porém, impactos desiguais não são exclusivos da pandemia.

O desequilíbrio na forma como grandes crises afetam diferentes parcelas da população pode ser percebido de várias maneiras e em diferentes contextos:

E tudo isso, infelizmente, não chega nem perto de esgotar todos os problemas e consequências da desigualdade social e econômica crescente.

Leia também: Como a pandemia de Covid-19 impacta na erradicação da pobreza (ODS 1)

O estado da desigualdade global e no Brasil

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Imagem: Bullat Silvia/Getty Images

Do ponto de vista histórico, as desigualdades globais são tão grandes hoje quanto no auge do imperialismo ocidental no início do século XX. Aliás, a renda da metade mais pobre da população mundial é cerca de duas vezes menor hoje do que em 1820.

A verdade é que a equação se repete ao longo dos anos. Ou seja, os mais ricos detêm mais poder – e, portanto, ficam cada vez mais ricos –, enquanto pessoas pobres e de grupos vulneráveis têm pouca ou nenhuma oportunidade para se mobilizar socialmente, fazendo com que a pobreza perdure por gerações.

O relatório World Inequality 2022 traz alguns dados que refletem com clareza essa segregação socioeconômica resultante de uma distribuição extremamente desigual de riqueza e renda. Segundo o estudo:

  • Mais da metade (52%) de todo o rendimento global vai para os 10% mais ricos da população.
  • A parcela mais pobre recebe apenas 8,5% da renda distribuída em todo o mundo.
  • Enquanto os 10% mais ricos ganham anualmente, em média, US$ 122.100; indivíduos do grupo mais pobre da população ganham US$ 3.920 por ano.

Além disso, a pesquisa indica que as desigualdades globais de riqueza são ainda mais pronunciadas do que as desigualdades de renda. A metade mais pobre da população global tem apenas 2% do total de riquezas. Em contraste, os 10% mais ricos detêm 76% de toda a riqueza do mundo.

De fato, essa é uma diferença assustadora. Porém, é importante lembrar que esses dados mostram a média global. Ou seja, o contraste entre diferentes países é ainda maior.

Analisando as médias de rendimento dentro de diferentes regiões é possível entender com mais clareza o tamanho da desigualdade. O Brasil, por exemplo, é um dos países com piores distribuição de renda no mundo.

  • Enquanto a parcela mais pobre dos brasileiros possui menos de 1% da riqueza do país, 1% da população brasileira detém metade da riqueza total.
  • Além disso, a metade mais pobre da população brasileira recebe uma renda 29 vezes menor do que a dos 10% mais ricos.

Em termos de comparação, na Suécia, um dos países menos desiguais do mundo, os 10% mais ricos da população ganham pouco mais de 30% da renda nacional total e os 50% mais pobres recebem quase 24% da renda nacional.

Leia também: Como o aumento do desemprego afeta a Agenda 2030 e a evolução do ODS 8

Impactos desiguais da crise da pandemia

desigualdades pandemia
Imagem: Fernando Bizerra/Agencia EFE

Com mais de 30 milhões de casos diagnosticados, o Brasil é o país mais afetado pela Covid-19 na região da América Latina e Caribe e o terceiro em todo o mundo. No entanto, os impactos da crise social e econômica gerados pela pandemia no Brasil não atingiram a todos da mesma maneira.

Segundo o relatório Pobreza e Equidade no Brasil, desenvolvido pelo Banco Mundial, a parcela mais pobre da população brasileira sentiu mais duramente as consequências econômicas negativas da pandemia. O estudo aponta que:

Por fim, outro aspecto que indica como a crise gerada pela Covid-19 contribuiu para o aumento das desigualdades no Brasil é o aumento do número de brasileiros vivendo com fome. 

O Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil revela que 19,1 milhões de brasileiros conviviam com a fome no fim de 2020. Em 2022, já são 33,1 milhões de pessoas sem ter o que comer.

Leia também: O agravamento da insegurança alimentar no Brasil e o papel das empresas no combate à fome

A relação entre as desigualdades e o desenvolvimento sustentável

desigualdades desenvolvimento sustentável
Imagem: ptrabattoni/Pixabay

A desigualdade impacta a sociedade de tantas maneiras que não é possível falar em desenvolvimento sustentável sem tratar das desigualdades que assolam grande parte da população.

Não é à toa que dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), onze estão relacionados a algum tipo de desigualdade e trazem metas para gerar mais equidade e inclusão. São eles: objetivos 1, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 16 e 17.

Além disso, direta e indiretamente, a desigualdade impede o avanço da maioria dos objetivos da Agenda 2030, ao mesmo tempo em que agrava alguns problemas que os ODS propõem resolver. Entenda:

O progresso do ODS 10

Ainda que esse seja um tema que permeia toda a Agenda 2030, há um ODS que trata de maneira direta a desigualdade: é o Objetivo 10, que visa reduzir as desigualdades no interior dos países e entre eles.

Esse ODS aborda questões como as desigualdades de riqueza e renda, a regulação dos mercados financeiros globais e os desequilíbrios de poder na governança global.

Como os dados desse artigo indicam, as desigualdades globais estão em péssimo estado. De maneira geral, essa é uma questão que tem piorado nos últimos anos, especialmente por conta da Covid-19 e de outros fatores econômicos e políticos. Ou seja, estamos longe de alcançar os ODS 10.

No Brasil, um país historicamente já bastante desigual, o cenário é bastante ruim, e o ODS 10 também parece estar travado.

Segundo o Relatório Luz, desenvolvido pelo Grupo de Trabalho da Sociedade Civil para a Agenda 2030, no Brasil, das 10 metas do ODS 10:

  • Sete estão em retrocesso;
  • Uma está estagnada;
  • Duas não puderam ser analisadas por falta de disponibilização de dados.

Ou seja, nosso país definitivamente está bem longe do caminho para promover a redução das desigualdades até 2030.

O papel das empresas para a redução das desigualdades

Lagos Techie/Unsplash

O poder privado tem um papel muito importante na redução das desigualdades. Afinal, as empresas influenciam nos níveis de desigualdades das seguintes maneiras:

  • Por meio das decisões que tomam sobre como distribuir o valor econômico que geram – inclusive decidindo se pagam salários dignos e como estruturam a remuneração dos executivos.
  • Pagando ou não impostos essenciais para financiar a previdência social que reduz a desigualdade e o investimento público em saúde, educação e infraestrutura.
  • Pela maneira como usam sua influência econômica e política para moldar o mercado e seu ambiente regulatório.
  • Os negócios também podem exacerbar a desigualdade e seus impulsionadores estruturais quando são cúmplices na perpetuação de preconceitos e discriminação.
  • Além disso, por meio de suas operações, as empresas lidam diretamente com questões relacionadas a direitos humanos e direitos dos trabalhadores. Portanto, têm função crucial de garantir que todos os envolvidos em seus processos internos e externos sejam tratados de maneira justa e igualitária.
  • Por fim, organizações também podem ter um impacto positivo para a redução das desigualdades por meio de modelos de negócios inclusivos que empoderam grupos marginalizados no local de trabalho, no mercado e na comunidade.

Quer saber mais sobre as ações que as empresas podem desenvolver para contribuir para o avanço do ODS 10? Esse é o tema do próximo artigo da série sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030.

 ➔ Enquanto isso, leia os artigos já publicados nessa série ODS para entender o progresso da Agenda 2030. Acompanhe a série e conheça empresas que estão fazendo seu papel para garantir um futuro mais justo, inclusivo e sustentável.

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Francine Pereira

Jornalista, especializada em criação de conteúdo digital. Há mais de 10 anos escrevo sobre tendências de consumo, inovação, tecnologia, empreendedorismo, marketing e vendas. Minha missão aqui no A Economia B é contar histórias de empresas que estão ajudando a transformar o mundo em um lugar mais justo, igualitário e sustentável.

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