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Como o aumento do desemprego afeta a Agenda 2030 e a evolução do ODS 8

Mauro Pimentel/AFP

Entenda a importância do ODS 8 para uma economia mais inclusiva e sustentável e, além disso, saiba como o aumento do desemprego impacta profundamente os avanços nessa área 

Objetivo de Desenvolvimento Sustentável – ODS 8:

ODS 8 - desemprego e a Agenda 2030Este conteúdo faz parte da série Pandemia de Covid-19 e os ODS. Clique aqui e confira todos os artigos sobre o impacto dessa crise na Agenda 2030. 

É inegável que a propagação da Covid-19 teve repercussões profundas na economia global e impactou diretamente o oitavo Objetivo de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030, que visa promover o crescimento econômico inclusivo e sustentável, o emprego pleno e produtivo e o trabalho digno para todos.

No entanto, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), mesmo antes dessa crise, as metas referentes a este ODS estavam longe de ser alcançadas.

Inclusive, a entidade já havia alertado que era necessário acelerar os esforços para superar os desafios que as pessoas com deficiência ainda encontram no mercado de trabalho e diminuir os níveis de desemprego global e as diferenças salariais entre homens e mulheres.

O que aconteceu com a pandemia, porém, foi uma reversão de progressos alcançados nessa área e em outros objetivos da Agenda 2030, especialmente no que diz respeito à pobreza extrema.

Isso porque, apesar de cada Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 ser relevante para a construção de um futuro sustentável e regenerativo, as metas referentes aos 17 ODS não agem isoladamente. E o ODS 8 é um ótimo exemplo de como isso acontece. Veja bem:

Ou seja, com o progresso de ações para alcançar as metas do ODS 8, diversas outras áreas são impactadas. Da mesma forma, as iniciativas em prol das metas de outros Objetivos de Desenvolvimento Sustentável interferem na geração de emprego e no crescimento econômico.

Entenda como essa crise sanitária impactou a economia global e de que maneira isso se refletiu no mercado de trabalho, afetando a vida de milhares de trabalhadores ao redor do mundo.

Um olhar sobre o progresso econômico global 

ODS 8 - desemprego e a Agenda 2030
Kyodo/JapanTimes

Antes do início da pandemia, o crescimento médio da economia global já havia desacelerado. Aliás, estávamos bem longe de alcançar a meta do ODS 8 de 7% de crescimento anual do PIB, necessário para uma economia forte e sustentável.

A crise sanitária prejudicou ainda mais o progresso desse objetivo, causando a pior recessão econômica global desde a Grande Depressão, com um enorme impacto no tempo de trabalho e na renda em todo o mundo. 

OIT estima que 8,8% das horas de trabalho globais tenham sido perdidas em 2020. Na prática, isso equivale à perda de 255 milhões de empregos em período integral. Ou seja, cerca de quatro vezes mais do que os trabalhos perdidos durante a crise financeira global de 2009.

Com a expansão da vacinação e o relaxamento das medidas de restrição e isolamento, a economia começou a dar sinais de recuperação. Estimativas do Banco Mundial indicam que 2021 já foi um ano de crescimento na economia, com o PIB global crescendo 5,5% – o ritmo de pós-recessão mais forte registrado em 80 anos. 

Contudo, muitos países em desenvolvimento – inclusive o Brasil – registram um movimento de recuperação mais lento. Isso se deve, dentre outras coisas, ao avanço menos acelerado da vacinação e à falta de políticas para lidar com os efeitos da pandemia. 

Na análise do Banco Mundial, o PIB Global deve crescer 4.1% em 2022. Por outro lado, a previsão de crescimento para o PIB brasileiro neste ano é de apenas 1,4%. 

“Os efeitos da pandemia em mercados emergentes e países em desenvolvimento se refletem principalmente no capital humano. Entre os países mais vulneráveis, o impacto da pandemia reverterá vários anos de ganhos de renda”, aponta o relatório Global Economic Prospects.

ODS 8 - PIB

O impacto da pandemia no nível de desemprego

No Brasil, o número de pessoas sem trabalho já era preocupante antes da pandemia. Em 2019, a taxa média de desemprego no país era de 11,9%.

Porém, a situação se agravou em 2020, e o índice de pessoas desempregadas saltou para 13,5%. Ou seja, 7,3 milhões de brasileiros perderam seus empregos no primeiro ano da pandemia.

Conforme dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad), essa foi a primeira vez na série anual da pesquisa que menos da metade (49,4%) da população em idade para trabalhar estava ocupada no país. 

No primeiro trimestre de 2021, o índice de desemprego continuou subindo, até atingir a marca de 14,9%. Com o início da vacinação, porém, a situação melhorou um pouco, e a taxa de pessoas desocupadas passou para 12,6% no terceiro trimestre do ano passado (o menor nível desde o primeiro trimestre de 2020).

No entanto, 13,5 milhões de brasileiros ainda estão desempregadosOu seja, a taxa de desocupação continua muito alta. Soma-se a isso o fato de que 29% dos desempregados estão nesta situação há mais de dois anos. 

Cicatrizes da pandemia no mercado de trabalho

Thiago Freitas/Agência O Globo

Uma análise feita pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) indica que a melhora da atividade econômica e o crescimento da população ocupada não foram suficientes para reduzir o impacto provocado pela pandemia da Covid-19 no mercado de trabalho.

Neste sentido, a entidade alerta que o aumento na taxa de pessoas ocupadas deve-se principalmente ao retorno dos profissionais informais.

Esse grupo, que não conta com a mesma proteção de quem tem carteira assinada, foi muito prejudicado por conta das medidas de restrição e isolamento impostas pela pandemia. Porém, com o relaxamento das medidas, muitos retornaram suas atividades. 

E ainda, segundo Maria Andréia Lameiras, pesquisadora do Grupo de Conjuntura do Ipea e autora do estudo, além das pessoas que ficaram fora do mercado de trabalho por conta da pandemia, existem aquelas que já estavam nessa situação e que pararam de buscar emprego por conta da crise sanitária. 

“Muita gente deixou de procurar emprego por medo de contágio, porque sabia que a situação econômica estava muito ruim e a probabilidade de conseguir um emprego era muito pequena e porque existiu o auxílio emergencial que, bem ou mal, deu segurança ao trabalhador de ficar em casa se protegendo e ter algum meio de subsistência”, comenta.

As mudanças na renda do brasileiro 

Outro efeito relevante da pandemia pode ser observado na forma como as pessoas passaram a obter seus rendimentos. Nos últimos anos, presenciamos mudanças significativas no mercado de trabalho que, em geral, passou a contar com muito mais pessoas buscando formas alternativas de renda. 

Em 2020, 61% dos brasileiros (128.7 milhões de cidadãos) possuíam alguma forma de rendimento. De acordo com a Pnad Contínua, dentro desse grupo: 

  • 40,1% tinham rendimentos provenientes de algum tipo de emprego – em 2019, esse índice era de 44,3%.
  • 28,3% tinham rendimentos alternativos – em 2019, esse índice era de 23,6%.

Ou seja, enquanto o número de pessoas com renda vinda do trabalho diminuiu 8,9%, o grupo de pessoas com rendimento vindo de outras fontes aumentou 20,7%.

Um dado interessante em relação a essa mudança é que, entre 2012 e 2019, a principal fonte alternativa de renda era aposentadoria ou pensão. Já em 2020, os ganhos provenientes da categoria “outros rendimentos” (dentre os quais estão, por exemplo: seguro-desemprego, seguro-defeso, programas sociais do governo e rendimentos de poupança) ganharam destaque. 

  • Em 2019, 7,8% dos brasileiros (16,4 milhões) afirmaram receber de “outros rendimentos”.
  • Em 2020, o número de pessoas dependentes dessas rendas alternativas cresceu 85% – com 14,3% dos brasileiros (30,2 milhões) afirmando terem “outros rendimentos”.

Isto é, em 2020, muito mais pessoas passaram a ter rendimentos provenientes de programas sociais e seguro-desemprego, ao invés de rendas de trabalho.

ODS 8 - desemprego e a Agenda 2030
Fabiane de Paula/Diário do Nordeste

Além disso, a pesquisa do IBGE indica que, nesse período, 23,7% dos domicílios do país contaram com a ajuda do Auxílio Emergencial. Em 2019, apenas 0,7% dos domicílios brasileiros recebiam algum programa social do governo.

No entanto, o valor médio mensal desses rendimentos alternativos em 2020 foi de R$ 1.295, representando uma queda de 15,4% em relação a 2019 – sendo o menor valor registrado desde 2012.

Aliás, o valor do rendimento da população brasileira decaiu de maneira geral no último ano…

Em 2019, o rendimento médio mensal dos brasileiros vindo de todas as fontes (emprego e rendas alternativas) era de R$ 2.292. Em 2020, esse valor diminuiu 4,3%, passando para R$ 2.213.

Também é preciso levar em conta que há uma desigualdade extrema na distribuição dessa renda. A Pnad indica que a renda média mensal domiciliar per capita dos 50% da população com menores rendimentos foi de R$ 453,00. Contudo, para 1% da população, essa renda mensal foi 35 vezes maior: R$ 15.816.


Relevância dos programas sociais 

Os dados indicam que, com o aumento do desemprego, aumenta também a incidência de extrema pobreza e pobreza no país. Porém, isso só não aconteceu desde o início da pandemia devido aos programas sociais.

  • Em 2020, cerca de 12 milhões de pessoas viviam em extrema pobreza e mais de 50 milhões viviam em situação de pobreza.
  • Na comparação com 2019, houve uma pequena queda nos percentuais de população em situação de extrema pobreza (de 6,8% para 5,7%) e pobreza (de 25,9% para 24,1%).
  • No entanto, sem os programas sociais, o percentual de pessoas em extrema pobreza e pobreza seria o maior em toda a série, chegando a, respectivamente, 12,9% e 32,1% em 2020.

Desigualdade de oportunidades e renda

ODS 8 - desemprego e a Agenda 2030
Sebastiao Moreira/EPA

Para promover um crescimento econômico inclusivo e sustentável, é importante tratar a questão da desigualdade social. Afinal, esse é um fator diretamente relacionado às possibilidades de trabalho, conforme indica um estudo do Ipea.

Segundo a análise, em todas as cidades estudadas, a população branca e de alta renda tem mais acesso às oportunidades do que negros e pobres. Até mesmo o fato de morar em periferias, sem fácil acesso a transporte público, interfere nas chances de se conseguir um emprego.

Como ressalta Marina Grossi, presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), alguns dos problemas de desigualdade que foram negligenciados nas últimas décadas ficaram mais claros com a Covid-19.

Marina Grossi
Marina Grossi

“A vulnerabilidade da população que vive em submoradias, sem água encanada ou esgoto, que viaja apertada em transporte público e está acostumada a enfrentar longas filas para ser atendida no sistema de saúde ficou evidenciada como um problema mais amplo, relacionado à nossa interdependência social e ambiental. Resultado do desequilíbrio ambiental, o novo coronavírus é uma evidência gritante da necessidade de criarmos uma sociedade mais resiliente”, frisa. 

Marina destaca ainda que, antes da pandemia, o Fórum de Davos já havia posicionado o tema da desigualdade social como fundamental a ser tratado nesta década da implementação dos ODS, demonstrando consciência de que a perpetuação de desigualdades extremas conspira contra a estabilidade econômica e política.

Leia também: O impacto da Covid-19 na Agenda 2030 e o futuro pós-pandemia

Aliás, a desigualdade que impede que uma grande parcela da população tenha acesso a oportunidades de trabalho, também se reflete numa disparidade de renda colossal. 

O relatório World Inequality Report 2022 mostra quão gigantes são as diferenças de rendimento: 

  • Em 2021, 50% da população global mais pobre (2,5 bilhões de pessoas) recebeu 8,5% de toda a renda gerada do mundo.
  • No mesmo ano, 10% da população global mais rica (517 milhões) recebeu mais da metade (52%) dos rendimentos distribuídos em todo o mundo.
  • A metade mais pobre da população mundial possui apenas 2% da riqueza líquida total. Já a metade mais rica possui 98% de toda a riqueza do planeta.

Os mais afetados pelo desemprego

ODS 8 - desemprego e a Agenda 2030
Rovena Rosa/Agência Brasil

A desigualdade no mercado de trabalho é visível não apenas na dificuldade de acesso a oportunidades profissionais e no desequilíbrio da renda, mas, também, na forma como o desemprego atinge de maneira desproporcional diferentes parcelas da população.  

Em 2020, globalmente, jovens e mulheres foram particularmente atingidos pela crise da Covid-19. A taxa de desemprego para esses grupos foi de 8,7% e 5%, respectivamente – em comparação com 3,7% para todos os adultos e 3,9% para os homens.

“Antes da pandemia, a taxa de desemprego dos jovens já era três vezes maior do que a dos profissionais mais velhos. Durante a crise, as mulheres eram mais propensas do que os homens a abandonar a força de trabalho para cuidar dos filhos. Isso aumentou ainda mais as disparidades de gênero de longa data nas taxas de participação na força de trabalho”, aponta um relatório das Nações Unidas sobre o progresso dos ODS. 

No Brasil, segundo análises do Ipea, três grupos já historicamente mais afetados pelo desemprego durante crises econômicas sofreram ainda mais com a falta de trabalho por conta da pandemia: jovens, mulheres e negros. 

Leia também: Diversidade e Inclusão nas empresas – uma jornada de transformação necessária e urgente

Perspectivas para a economia e o mercado de trabalho pós-pandemia

Segundo o relatório World Employment and Social Outlook 2022, desenvolvido pela OIT, devemos presenciar uma recuperação lenta e incerta no mercado de trabalho nos próximos anos. 

O estudo indica que a reabilitação econômica global no último ano dependeu diretamente da contenção do novo coronavírus. Sendo assim, houve grandes variações regionais, de acordo com os esforços feitos em diferentes países e setores. E ainda, cada novo surto, cada nova variante, traz novos contratempos que complicam o ritmo de retomada. 

“O impacto de desemprego e diminuição de renda foi particularmente grave para as nações em desenvolvimento que experimentaram níveis mais altos de desigualdade, condições de trabalho mais divergentes e sistemas de proteção social mais fracos mesmo antes da pandemia”, aponta o relatório.

Em relação às metas do ODS 8 para a promoção de trabalho digno para todos, o relatório evidencia que muitos ganhos obtidos antes da pandemia foram significativamente impactados. E ainda, déficits de trabalho decente pré-existentes estão prejudicando as perspectivas de uma recuperação sustentável em muitas regiões.

A previsão da OIT é que o total de horas trabalhadas globalmente em 2022 permaneça quase 2% abaixo do nível pré-pandemia. Isso corresponde à perda de 52 milhões de empregos em período integralA entidade estima que 207 milhões de pessoas estarão desempregadas este ano, superando o nível de 2019 em cerca de 21 milhões. 

ODS 8 - desemprego e a Agenda 2030
Amanda Perobelli/Reuters

Como as empresas podem contribuir para o progresso do ODS 8

Menos pessoas trabalhando, mais pessoas dependendo de programas sociais, recuperação econômica lenta, desigualdade de acesso a oportunidades de trabalho, desequilíbrio de rendimentos… Em um cenário assim, fica difícil imaginar que, até o final desta década, o ODS 8 seja alcançado e que tenhamos uma economia sustentável e inclusiva, com trabalho digno para todos.

Porém, ainda é possível avançar nesse sentido. Para isso, todos os agentes da sociedade – cidadãos, poder público, poder privado e instituições de ensino – precisam agir em prol da construção desse futuro com mais emprego e renda justa. 

As empresas têm um papel importantíssimo nessa jornada. Por meio da criação de empregos, proteção dos direitos do trabalho e atuação em problemas sociais, negócios de todos os tamanhos podem contribuir para alcance das metas do ODS 8.

Esse é o tema do nosso próximo artigo sobre o oitavo Objetivo de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030.

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➔ Enquanto isso, leia os artigos já publicados nessa série ODS para entender o progresso da Agenda 2030 e conhecer empresas que estão fazendo seu papel para garantir um futuro mais justo, inclusivo e sustentável:

Série: A Pandemia de Covid-19 e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)

Francine Pereira

Jornalista, especializada em criação de conteúdo digital. Há mais de 10 anos escrevo sobre tendências de consumo, inovação, tecnologia, empreendedorismo, marketing e vendas. Minha missão aqui no A Economia B é contar histórias de empresas que estão ajudando a transformar o mundo em um lugar mais justo, igualitário e sustentável.

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