Inovação

Os dados para combater as mudanças climáticas estão lançados: a resposta pode começar no aprendizado

Jogo criado por professor da USP transforma cooperação e estratégia em ferramentas para discutir sustentabilidade e despertar o senso de urgência climática

Em uma mesa, cartas espalhadas, dados coloridos e um cronômetro regressivo marcando dez minutos. A cena poderia representar apenas mais uma confraternização entre amigos, mas, nesse cenário específico, além da diversão, existe o objetivo evitar o colapso climático. 

Criado pelo professor Alex Virgilio, do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (CENA) da Esalq-USP, o jogo de cartas Emergência Climática convida os participantes a cooperar para conter a crise climática antes que o tempo se esgote.

A ideia nasceu da combinação de duas paixões do professor: a sustentabilidade e os jogos analógicos. “Desde a infância, cresci cercado por jogos de tabuleiro e acabei me apaixonando por jogos modernos e experiências analógicas na fase adulta”, conta.

Desde 2020 trabalhando em uma unidade dedicada à agricultura e meio ambiente da USP, o professor encontrou no lúdico uma forma concreta de contribuir com o avanço do ODS 4 – o objetivo global que defende o acesso à educação inclusiva e de qualidade para todos – usando jogos para tornar a sustentabilidade mais acessível.

O embrião do jogo surgiu em 2024, dentro de um projeto voltado à inclusão, pertencimento e integração da comunidade do campus. Em 2025, com apoio do edital SustentaUSP, o jogo finalmente ganhou forma e chegou às mãos de seus primeiros jogadores.

Como funciona

Foto: Reprodução Jornal da USP

Diferente de clássicos competitivos como War ou Banco Imobiliário, Emergência Climática é cooperativo. Todos jogam juntos e, assim como é a relação da sociedade com o clima, vencem ou perdem coletivamente. “Mas e se pudéssemos ganhar em grupo ou aprender juntos na derrota para tentar novamente?”, provoca o professor. 

Durante o jogo, os participantes precisam dialogar, negociar e, muitas vezes, abrir mão de um recurso individual para ajudar o colega. Essa dinâmica não é aleatória, simboliza a própria lógica da crise climática. “A coordenação das ações em torno de um objetivo coletivo maior torna o jogo parecido com o mundo real”, explica Alex.

A urgência também é estrutural. Cada partida dura apenas dez minutos e o cronômetro é parte central da experiência. A pressão do tempo provoca erros, intensifica a necessidade de cooperação e simula a realidade fora da mesa. “No mundo real também deveríamos agir de imediato para mitigar a crise climática e evitar atingir um ponto de não retorno. Nesse ponto, o jogo imita a vida”, destaca.

Imagem: Divulgação Jornal da USP

Na prática, o jogo funciona assim:

Cada jogador começa com duas cartas à sua frente – cada uma representando uma ação sustentável com requisitos específicos de cores, números ou disposição dos dados para ser completada. Ao todo são 56 cartas de ações sustentáveis, sendo 17 delas diretamente inspiradas nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.

A cada rodada, o jogador da vez retira dados coloridos de uma sacola, rola todos e cada jogador escolhe apenas um para alocar em uma de suas cartas. 

Quando todos os requisitos de uma carta são cumpridos, ela é completada e o jogador compra uma nova. 

O desafio está justamente aí: os dados são compartilhados, e decidir coletivamente quem fica com qual dado é parte central do jogo. 

Ao final dos dez minutos, a equipe soma os pontos de todas as cartas completadas – cada uma vale pontos equivalentes ao seu nível de dificuldade – e consulta um ranking no manual para descobrir qual nível de sustentabilidade alcançou.

Ao cumprir requisitos de cores, números e disposição espacial, acumulam pontos que, ao final, indicam o nível de sustentabilidade alcançado. 

Presente e futuro

Apesar da temática robusta, o professor não enxerga o jogo como substituto da sala de aula. “O jogo ‘Emergência Climática’ por si só, não foi concebido como ferramenta única para o ensino, mas sim como uma abordagem complementar”, aponta. Para ele, o desafio está no equilíbrio entre profundidade e diversão. O objetivo é provocar discussões após a partida, estimulando reflexões sobre como cada ação do jogo dialoga com o mundo real.

No fim, o que o professor Alex espera vai além da mesa de jogo. “Seria muito gratificante se, após algumas partidas, os participantes tivessem uma maior noção sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e a necessidade de agir frente às mudanças climáticas”, reflete. 

Em dez minutos de tensão e cooperação, a mensagem é clara: o tempo está passando e ninguém vence sozinho.

O jogo nasceu sem fins comerciais e teve tiragem limitada – apenas 20 cópias. Mas o interesse crescente de escolas, museus e organizações colocou uma nova questão na mesa: como levar “Emergência Climática” para mais pessoas? O professor ainda busca a resposta, avaliando caminhos como parcerias com editoras, patrocínios ou financiamento coletivo.

Leia também:
Jogo “CLIMA TENSO” leva consequências da crise climática para a sala de aula


Conheça a nossa plataforma de curadoria e treinamento B2B sobre impacto, ESG e regeneração

Farol da Economia Regenerativa é uma solução de curadoria de conteúdo sobre ESG, sustentabilidade, impacto e regeneração. Funciona como um programa de aprendizado contínuo e é planejado sob medida para sua equipe e organização.

O Farol oferece palestras, treinamentos, notícias, tendências, insights, coberturas internacionais e uma curadoria exclusiva para a sua organização e seu time navegarem pelos temas mais urgentes da nossa era. Conheça o Farol e entre em contato para agendarmos uma conversa.

Deixe um comentário
Compartilhe
Publicado por
Tom Schiebel

Posts recentes

  • Inovação

Software brasileiro prevê impactos das mudanças climáticas na biodiversidade

Por meio da projeção de cenários climáticos, caretSDM antecipa riscos à biodiversidade e fornece informações…

fevereiro 13, 2026
  • Clima

Ondas de calor ficam mais frequentes no Brasil, agravam doenças crônicas e pressionam sistema de saúde

Levantamento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação analisa dez anos de estudos e propõe…

fevereiro 6, 2026
  • Climate tech

Ciência, jornalismo, dados e IA a serviço da adaptação climática no Brasil

Painel do Clima transforma a robusta ciência climática brasileira em informação estratégica para inspirar políticas…

novembro 19, 2025
  • ODS

Como Marselha está construindo resiliência climática reimaginando espaços públicos

Ameaçada por noites tropicais e calor extremo, Marselha investe 360 milhões de euros em soluções…

outubro 21, 2025
  • ODS

Com WhatsApp e organização comunitária, povoado colombiano recupera 3 mil toneladas de resíduos recicláveis em 18 meses

Experiência de Potreritos, povoado de Medellín, mostra como soluções simples e participação cidadã podem transformar…

outubro 13, 2025
  • ODS

Cidade dos Estados Unidos aposta em parceria comunitária para expandir áreas verdes

Projeto envolve moradores e organizações não-governamentais no plantio e cuidado de milhares de árvores em…

outubro 6, 2025

Este site utiliza cookies.