Histórias B

Bioeconomia e o futuro da Amazônia – como negócios sustentáveis podem ajudar a salvar a floresta

Bioeconomia e o futuro da Amazônia

Especialistas debatem a importância da preservação da Amazônia para a agenda climática global e destacam a relevância da bioeconomia para o desenvolvimento sustentável da região amazônica 

O que o poder privado tem a ver com a conservação da Amazônia?

Tudo! Afinal, além de os processos de produção e consumo afetarem diretamente a floresta por conta das emissões de carbono, muitos insumos utilizados no desenvolvimento de produtos vêm da região amazônica.  

É por isso que é fundamental falar sobre bioeconomia quando o assunto em pauta é a crise climática e a preservação da floresta mais importante do mundo. Antes, porém, precisamos falar sobre por que a preservação da Amazônia é uma pauta tão urgente…

A importância da preservação da Amazônia

Amazônia

Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) apontam que, em junho de 2021, a Amazônia perdeu uma área de 1.061,9 km² de sua cobertura vegetal. Este é o pior índice de desmatamento para o mês desde o início da série histórica, em 2016. No entanto, infelizmente, está longe de ser um fato isolado. Pelo contrário. Em 2021, junho foi o quarto mês consecutivo com recorde de devastação.

Além disso, de acordo com a rede de organizações da sociedade civil Observatório do Clima (OC), o desmatamento anual deverá ultrapassar a marca de 10 mil km² este ano, pela terceira vez seguida.

Se continuarmos nesse ritmo, logo chegaremos ao chamado ponto de não retorno ou ponto de inflexão. Ou seja, situação em que o nível de degradação da floresta seria tão grave, que o bioma amazônico não conseguiria mais se regenerar. Isso afetaria diretamente os padrões de chuva, iniciando um processo de savanização.

Parece algo apocalíptico? É porque realmente é.

A situação se torna ainda mais alarmante quando entendemos o quão próximo estamos de ver isso acontecer. Já foram desmatados cerca de 17% da Amazônia. O ponto de não retorno deve acontecer se as áreas de desflorestamento excederem 20% a 25% da região.

Ou seja, a conversa sobre a bioeconomia entra aí porque reverter esse cenário é urgente!

O que é bioeconomia

Segundo a CNA, a bioeconomia utiliza recursos de base biológica, recicláveis e renováveis para oferecer soluções coerentes, eficazes e concretas para os grandes desafios globais.

Além disso, de acordo com o Jornal Nexo, a bioeconomia se distingue de outros setores que usam recursos naturais por dois motivos:

  1. Uso da biotecnologia (entre outros conhecimentos científicos de ponta);
  2. Objetivo de construir um modelo de produção sustentável a longo prazo, baseado no uso de recursos renováveis e limpos.

A agenda brasileira da Cúpula Global do Clima* contou com um painel sobre esse tema. A seguir, compartilhamos os principais destaques do debate “O que as empresas B do Brasil estão fazendo em prol da Amazônia por meio da bioeconomia e da inovação?”. Acompanhe!

A bioeconomia e o futuro da Amazônia

Os panelistas abriram o encontro pontuando que a conservação da Amazônia é parte central da agenda do clima global

Denise Hills – Bioeconomia e o futuro da Amazônia
Denise Hills

Não existe espaço para recuperação climática sem uma Amazônia em pé, sem uma Amazônia que tenha um novo modelo de desenvolvimento, que seja colaborativo, coletivo e que garanta a legalidade das atividades econômicas na região”, declarou Denise Hills, diretora global de Sustentabilidade da Natura.

Além disso, Denise destacou a importância da bioeconomia nesse contexto. Segundo ela, é fundamental caminharmos para esse modelo alternativo, pois, além de ajudar a manter a Amazônia em pé, ele gera oportunidades para pessoas que contribuem para a preservação da floresta e valoriza a riqueza e a biodiversidade dela.

Fernanda Stefani – Bioeconomia e o futuro da Amazônia
Fernanda Stefani

Inclusive, foi justamente com o foco em promover a bioeconomia na região que a empresa B 100% Amazônia foi criada. “Nosso negócio nasceu a partir do nosso inconformismo ao perceber que muita gente vem buscar matérias-primas na Amazônia, tratando-a como se fosse um armazém”, explica a fundadora Fernanda Stefani.

A 100% Amazônia é uma exportadora comercial de produtos florestais não madeireiros de base renovável, com relacionamento próximo às comunidades fornecedoras.

Na prática, a empresa promove acesso a insumos locais, respeitando o calendário produtivo da floresta, buscando o estabelecimento de relações horizontais com as comunidades e apoiando capacitações técnicas. 

Como a 100% Amazônia promove a bioeconomia por meio de relacionamentos locais

Marcelo Furtado
Marcelo Furtado

Debatendo sobre o que é preciso fazer para fortalecer a bioeconomia e diminuir o ritmo de desmatamento da região, Marcelo Furtado, Presidente do Conselho do WRI, levantou a importância da fiscalização e do embargo de áreas com evidência de desmatamento ilegal.

Sobre esse ponto, Rachel Biderman, vice-presidente sênior da Conservação Internacional, reforçou que utilizar ferramentas legais é crucial para punir crimes de devastação. O registro no Cadastro Ambiental Rural (CAR) é um exemplo disso.

Rachel Biderman – Bioeconomia e o futuro da Amazônia
Rachel Biderman
“A maioria que trabalha de forma legal na Amazônia está se prejudicando por conta de uma minoria que atua na ilegalidade, e que segue com impunidade. Se não usarmos os instrumentos legais do código florestal – dentre eles, a ferramenta do CAR, onde são registradas as propriedades e a partir da qual verificamos a legalidade do uso da terra –, não conseguiremos punir os criminosos”, salientou.

Nesse sentido, Fernanda argumentou que, além da aplicação da lei, para que mudanças significativas no tratamento da Amazônia ocorram, é preciso promover a colaboração e a participação coletiva das pessoas que moram e trabalham nestas regiões.

Para ela, ao criar um relacionamento próximo com territórios de desmatamento, as empresas  contribuem para o fortalecimento de cadeias produtivas mais sustentáveis, que respeitam a biodiversidade local. “Se existe um mindset capitalista, em que dinheiro vem acima de tudo, a lei não é suficiente. Precisamos estabelecer relacionamentos e modelos de negócios que mostrem às pessoas daquele território que preservar traz lucro. Na minha opinião, essa é a melhor maneira de, de fato, lidar com a crise climática no nosso país, que está diretamente ligada à necessidade de manter a Amazônia em pé”, apontou.

Em seguida, a CEO da 100% Amazônia explicou que é justamente esse tipo de trabalho que a empresa desenvolve. “Entre os 10 municípios do Pará onde há o maior número de desmatamento, compramos em quatro. Dessa forma, fortalecemos a região e estabelecemos relacionamento com os produtores nesses territórios”, detalhou. É a bioeconomia acontecendo na prática.

Ainda há esperança?

Apesar de os dados apontarem para um cenário catastrófico caso o ritmo de desmatamento siga acelerado, Fernanda acredita que vivemos um momento de transformação importante. 

Ela conta que, mesmo com a pandemia, o faturamento da 100% Amazônia cresceu 50% em 2020. Na visão da executiva, isso se deve a uma revolução em curso: cada vez mais, as próprias pessoas passam a definir quem merece e quem não merece permanecer no mercado.

“Conseguimos de fato ver essa mudança nos números, no posicionamento da sociedade, do consumidor final, das empresas que compram de nós. Muitos negócios nos abordam e falam: nós queremos comprar tal insumo da Amazônia, mas não é commodity. Queremos saber de onde vem, qual é o caminho e queremos saber como é feita toda essa negociação com a floresta”, contou.

Por fim, ela destacou que não existe impacto ambiental, sem impacto social, e que o movimento das empresas B tem um papel crucial nesse sentido. “Precisamos conectar essas duas questões que são pilares muito importantes do Sistema B: cuidar das pessoas e do planeta. Vejo esse momento como um renascimento, uma espécie de awakening, em que as pessoas entendem que precisam levantar bandeiras, mas também precisam partir para a ação”, refletiu.

Leia também:

*Este artigo sobre o painel  “O que as empresas B do Brasil estão fazendo em prol da Amazônia por meio da bioeconomia e da inovação?” faz parte da cobertura da primeira Cúpula Global do Clima, evento realizado pelo Sistema B e pelo B Lab entre 29/06 e 01/07/21. Assine nossa newsletter para receber todas as atualizações.

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Francine Pereira

Jornalista, especializada em criação de conteúdo digital. Há mais de 10 anos escrevo sobre tendências de consumo, inovação, tecnologia, empreendedorismo, marketing e vendas. Minha missão aqui no A Economia B é contar histórias de empresas que estão ajudando a transformar o mundo em um lugar mais justo, igualitário e sustentável.

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