ODS

ODS 12: por sistemas de produção e consumo mais responsáveis

Fotos: Chris LeBoutillier; Sharad Bhat; Collab Media - via Pexels

Este conteúdo sobre o ODS 12 faz parte da nossa série sobre o avanço dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentáveis (ODS). Leia todos os artigos já publicados aqui.

“O crescimento infinito do consumo material em um mundo finito é uma impossibilidade.”

Essa frase, dita pelo economista britânico Ernst Friedrich Schumacher nos anos 1970, reflete bem a realidade atual.

Nas últimas décadas, o crescimento contínuo da produção e do consumo, aliado à dependência cada vez maior a combustíveis fósseis, contribuiu para o agravamento de problemas socioambientais, como o aumento das emissões de gases de efeito estufa, da poluição do ar, da escassez de água e da geração de resíduos. 

Mas será que o crescimento econômico precisa acontecer às custas da degradação do ecossistema e de mudanças climáticas?

Diversas evidências e estudos mostram que não. É possível crescer de forma sustentável e responsável, sem prejudicar as pessoas e o planeta. Aliás, é justamente isso que propõe o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 12 da Agenda 2030: promover um sistema mais ambiental e socialmente responsável de produção e consumo. 

As metas relacionadas ao ODS 12 abordam os seguintes temas:

  • Gestão sustentável e o uso eficiente dos recursos naturais.
  • Redução do desperdício de alimentos.
  • Redução na geração de resíduos – por meio de prevenção, reciclagem e reuso.
  • Manejo ambientalmente saudável de produtos químicos e de todos os resíduos.
  • Adoção de práticas sustentáveis nas empresas.
  • Monitoramento e relato das ações de sustentabilidade nas empresas.
  • Redução do uso de combustíveis fósseis.
  • Incentivo ao consumo responsável. 

Neste artigo, analisamos o progresso do ODS 12 em diferentes áreas, identificando caminhos para acelerar o alcance dessas metas até o final da década.

Mas, antes, precisamos falar sobre um conceito que está diretamente relacionado a esse ODS: sistema de consumo e produção sustentável.

O que significa ter um sistema de produção e consumo sustentável?

Segundo o International Institute for Sustainable Development: 

O consumo e a produção sustentáveis referem-se ao “uso de serviços e produtos relacionados que atendam às necessidades básicas e proporcionem uma melhor qualidade de vida, minimizando o uso de recursos naturais e materiais tóxicos, bem como as emissões de resíduos e poluentes durante o ciclo de vida do serviço ou produto, de modo a não prejudicar as necessidades das gerações futuras”.

Outra definição mais recente, essa criada pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, indica que:

“Produção e consumo responsáveis fazem parte de uma abordagem holística para minimizar os impactos ambientais negativos dos sistemas de consumo e produção e, ao mesmo tempo, promover a qualidade de vida para todos.” 

A ideia central é clara: produzir e consumir de forma mais responsável, levando em conta os impactos na sociedade e no planeta. Ou seja, ter meios de produção e consumo responsáveis diz respeito a atender às necessidades de todos, utilizando menos recursos, incluindo energia e água, e produzindo menos resíduos e poluição.

Portanto, o conceito de sistema de produção e consumo sustentável refere-se à promoção da eficiência de recursos e energia, infraestrutura sustentável e acesso a serviços básicos, empregos verdes e dignos, e uma melhor qualidade de vida para todos. 

Princípios-chave do sistema de produção e consumo responsável

1) Melhorar a qualidade de vida sem aumentar a degradação ambiental e sem comprometer as necessidades de recursos das gerações futuras.

2) Desvincular o crescimento econômico da degradação ambiental:

a) Reduzindo a intensidade de material/energia das atividades econômicas atuais e diminuindo as emissões e resíduos da extração, produção, consumo e descarte.
b) Promovendo uma mudança nos padrões de consumo em direção a grupos de bens e serviços com menor intensidade de energia e material sem comprometer a qualidade de vida.

3) Aplicar o pensamento do ciclo de vida, que considera os impactos de todas as fases do ciclo do processo de produção e consumo.

4) Proteger contra o efeito bumerangue, em que os ganhos de eficiência são anulados pelos aumentos resultantes no consumo.Fonte: UNEP

Para avaliar o progresso do ODS 12, a seguir, vamos analisar dados que indicam padrões de extração, uso e descarte de recursos. Além disso, verificaremos questões relacionadas aos modos de produção – especialmente no que diz respeito ao uso de combustíveis fósseis. 

ODS 12: extração recursos 

ODS 12
Foto: Erlend Ekseth/Unsplash

A escala da extração e a velocidade com a qual extraímos recursos naturais para produção de bens de consumo cresceu significativamente nas últimas décadas.

Segundo o último relatório da Assembleia da ONU para o Meio Ambiente sobre o panorama global da utilização de recursos, entre 1970 e 2017, a extração anual de materiais como biomassa, minerais, metais e combustíveis fósseis subiu de 27 bilhões para 92 bilhões de toneladas. Além disso, a demanda média anual per capita desses materiais cresceu de 7 toneladas para mais de 12 toneladas. 

O documento aponta ainda que a extração de recursos naturais tem crescido em paralelo com as emissões de gases de efeito estufa (GEE), a geração de resíduos, a perda de biodiversidade, a poluição e as desigualdades globais.

Como nosso mundo mudou nos últimos 50 anos

Fonte: WWF

Estima-se que a extração e o processamento de materiais são responsáveis por aproximadamente um terço dos impactos na saúde humana e contribuem para metade de todas as emissões globais de gases do efeito estufa (excluindo-se os impactos climáticos do uso do solo). Além disso, são a causa de mais de 90% da perda de biodiversidade e da escassez de água.

E mais: os benefícios e impactos do uso de recursos naturais (incluindo materiais, terra, água) são distribuídos de forma desigual entre os países. Em 2017, a quantidade de recursos utilizados pelos países de alta renda excedia em 60% a dos países com renda média-alta e era mais de 13 vezes maior que a dos países de baixa renda.

ODS 12: combustíveis fósseis

A crescente utilização de combustíveis fósseis ameaça de maneira significativa a saúde do planeta e das pessoas. E essa é uma questão que está diretamente ligada aos nossos modos de produção – que dependem fortemente desses recursos. 

Segundo o relatório da ONU Emissions Gap 2023, as emissões de CO2 provenientes da combustão de combustíveis fósseis e dos processos industriais foram as que mais contribuíram para o aumento global das emissões nos últimos anos, representando cerca de dois terços das emissões de GEE. 

Entre 2021 e 2022, as emissões globais de gases de efeito estufa aumentaram 1,2%, atingindo um novo recorde de 57,4 gigatoneladas de CO2 equivalente (GtCO2e). 

Fonte: Our World in Data 

Indo na contramão das metas do ODS 12 para tornar os modos de produção mais sustentáveis, muitos países estão planejando um aumento no uso de combustíveis fósseis até 2030. 

De acordo com o Production Gap Report 2023, os planos atuais de muitos governos preveem uma produção de combustíveis fósseis em 2030 mais do que o dobro do compatível com o limite de aquecimento global de 1,5°C. 

E ainda, as estimativas indicam que a demanda global por carvão, petróleo e gás natural atingirá seu pico nesta década, mesmo sem novas políticas. Segundo o estudo, o Brasil está entre os três países com maiores planos de expansão no uso de petróleo (atrás apenas da Arábia Saudita e dos EUA). 

Especialistas alertam que continuar nesse caminho representa um risco enorme para o futuro. Afinal, além de causar impactos extremos no clima global, com a década de 2010-2019 sendo a mais quente já registrada, a expansão do uso dos combustíveis fósseis tem impactos significativos nas comunidades locais e no meio ambiente, incluindo a perda de biodiversidade e alterações nos meios de subsistência. 

ODS 12: geração de resíduos e desperdício de alimentos

Outras metas do ODS 12 que podem impactar diretamente a redução das emissões de GEE são as relacionadas ao manejo correto dos resíduos gerados na produção e à diminuição do desperdício de alimento.

O mundo gera 2,01 bilhões de toneladas de resíduos sólidos municipais anualmente. No entanto, pelo menos 33% disso – em uma estimativa extremamente conservadora – não são gerenciados de maneira ambientalmente segura.

Esse descarte incorreto gera diferentes subprodutos: entre eles, o metano, um dos gases mais prejudiciais para a atmosfera – ele é mais potente que o CO2 e é responsável por aproximadamente 16% das emissões totais de GEE no mundo.

ODS 12
Foto: Alexander Schimmeck/Unsplash

Indo além, outra questão relevante quando analisamos o impacto ambiental da crescente geração de resíduos é o modelo de produção predominante, que funciona em uma lógica linear (extrair, produzir, consumir e descartar). 

Para se ter uma ideia, de acordo com o Circularity Gap Report 2023, mais de 90% de todo o material extraído são desperdiçados, perdidos ou permanecem indisponíveis para reutilização por anos.

O relatório indica que, com uma economia mais circular – focando na reutilização, reciclagem e recuperação de produtos e materiais, prolongando seu ciclo de vida –, a extração global de materiais poderia ser reduzida em até um terço. Além disso, ao adotar o sistema circular nos produtos, serviços e sistemas desenvolvidos, estima-se que poderiam ser eliminadas cerca de 45% das emissões ligadas à indústria, agricultura e uso do solo.

Nesse sentido, o setor de produção de alimentos tem um peso significativo na geração de resíduos e de emissões de GEE.

  • Os sistemas alimentares compõem um terço das emissões de gases de efeito estufa, enquanto a pecuária sozinha está relacionada a cerca de 14,5% dessas emissões.
  • As atividades desse setor também têm impacto negativo na biodiversidade. Somente a agricultura representa uma ameaça para 86% das espécies que estão em risco de extinção.
  • A produção de alimentos que são perdidos ou desperdiçados responde por entre 8 e 10% das emissões globais de gases de efeito estufa.
  • Globalmente, 33-40% de todos os alimentos produzidos são desperdiçados, com uma estimativa de que 15,3% disso ocorre antes mesmo de os alimentos saírem da fazenda.

Os impactos ambientais do modelo atual

Então, o que acontecerá se os modos de produção e consumo não mudarem e as metas do ODS 12 não forem alcançadas?

O panorama futuro nessas condições é bastante sombrio: as mudanças climáticas se acentuarão e a perda de biodiversidade será ainda maior, causando impactos irreversíveis no ecossistema e ameaçando até mesmo a vida na Terra.

  • Calcula-se que a permanência do “business as usual” deve gerar um aumento contínuo nas emissões de gases de efeito estufa, o que pode elevar o aquecimento global para cerca de +3,2°C até 2100 (variando entre 2,5 e 3,5°C).
  • Nesse cenário, as tendências negativas na biodiversidade e nas funções dos ecossistemas devem continuar, com as mudanças climáticas adicionando mais pressão aos problemas existentes, como alterações no uso do solo e exploração excessiva.
  • E ainda, com a degradação contínua dos ecossistemas, eles perderão a capacidade fornecer produtos agrícolas e florestais e de armazenar carbono da atmosfera.

Essas crises climáticas e de biodiversidade, que se intensificam mutuamente, indicam que para resolver uma, é necessário considerar a outra. Uma mudança na forma de produzir e consumir não é somente necessária, como urgente.Fonte: Living Planet Report 2022

Um outro caminho é possível

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Foto: IA regenerativa – via rorozoa/freepik

Quando falamos em “business as usual” nos referimos ao modelo de produção e consumo insustentável que vem prevalecendo nas últimas décadas. Ou seja, um sistema baseado principalmente na exploração de recursos não renováveis, como petróleo, gás e carvão. 

Em contraste, um modelo de produção sustentável depende de recursos renováveis, como madeira sustentável, pesca e energia eólica ou solar, e leva em conta os impactos na saúde das pessoas e do planeta. 

Para superar o padrão insustentável de produção e consumo é crucial romper com a visão de que só é possível obter lucro mediante a exploração de recursos naturais.


Aliás, muitos países e empresas têm comprovado que é possível, sim, adotar um modo de produção que proporcione crescimento econômico sem necessariamente esgotar patrimônio natural e prejudicar o meio ambiente.
 

A riqueza de um país associada aos seus recursos naturais, chamada de “capital natural”, é avaliada pela quantidade e preço desses recursos. Segundo a iniciativa Changing Wealth of Nations, do Banco Mundial, que ajuda a avaliar a sustentabilidade da economia de um país, muitas nações têm expandido seu PIB em paralelo com a riqueza natural.

O Vietnã, por exemplo, entre 1995 e 2018, aumentou em cinco vezes seu PIB per capita – de US$ 1.800 para US$ 9.800. Neste mesmo período, o país duplicou seu capital natural. Em contraste, a Nigéria aumentou seu PIB per capita em 155%, às custas de mais da metade (-60%) do seu capital natural. 

O papel do setor privado para um modelo de produção mais responsável

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Foto: Rafael Albornoz/Unsplash

O setor privado desempenha um papel crucial no avanço do ODS 12, tanto pela capacidade de implementar práticas sustentáveis em suas próprias operações, quanto pelo poder de influenciar a sociedade e a economia de forma mais ampla. Afinal, empresas têm o poder de moldar o comportamento do consumidor, oferecendo produtos e serviços sustentáveis e engajando em campanhas de conscientização.

Além disso, organizações e empresários podem liderar iniciativas de advocacy por políticas públicas favoráveis à sustentabilidade, investir em projetos sustentáveis, criar mercados para soluções ecológicas e demonstrar responsabilidade e transparência em suas práticas. 

E ainda, há uma conexão direta entre sustentabilidade empresarial, políticas ambientais e responsabilidade social. Por isso, a colaboração entre o setor privado, público e a sociedade civil é essencial para alcançar os objetivos do ODS 12.

No próximo artigo sobre esse tema vamos analisar quais são os caminhos para acelerar o avanço do ODS 12, indicando boas práticas que as empresas podem adotar nesse sentido e mostrando alguns cases práticos de marcas que já atuam nesse sentido.

 ➔ Enquanto isso, leia os artigos já publicados nessa série ODS para entender o progresso da Agenda 2030. Acompanhe a série e conheça empresas que estão fazendo seu papel para garantir um futuro mais justo, inclusivo e sustentável.

Francine Pereira

Jornalista, especializada em criação de conteúdo digital. Há mais de 10 anos escrevo sobre tendências de consumo, inovação, tecnologia, empreendedorismo, marketing e vendas. Minha missão aqui no A Economia B é contar histórias de empresas que estão ajudando a transformar o mundo em um lugar mais justo, igualitário e sustentável.

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