Conversas

A orientação para stakeholders como meio para transformar a cultura organizacional

Graziela Merlina é Diretora de Educação do Capitalismo Consciente Brasil e uma das fundadoras do chapter brasileiro do movimento global. A mente analítica de uma engenheira, amparada por uma visão empática, a fez perceber que nem só de metodologias, ferramentas e processos se faz uma boa gestão e se transforma a cultura organizacional

Graziela Merlina
Graziela Merlina

Há pouco mais de 20 anos, engenheira de produção Graziela Merlina fundou a consultoria de RH Apoena (hoje Tribo). A história de como uma profissional das ciências exatas enveredou para o lado das ciências humanas é longa. Porém, um episódio recorrente no início de sua carreira é um bom ponto de partida para nos ajudar a entender.

No fim dos anos 1990, recém-formada e atuando no setor de supply chain, Graziela se sentia frustrada sempre que sistemas e processos implementados com sucesso em determinado contexto eram replicados em ambientes diferentes e não obtinham os mesmos resultados positivos.

Depois da frustração, veio a conclusão: nenhuma ferramenta, técnica, processo ou framework se sustenta sem uma gestão humanizada. “Era uma época em que se acreditava que o ciclo PDCA resolvia tudo. Porém, senti na pele a necessidade de olhar para as pessoas, para a liderança e para a cultura organizacional e atuar de outra forma”, lembra.

Pensando nisso, Graziela foi estudar. Fez pós-graduação em Administração de Empresas e Mestrado em Comportamento Organizacional. Então, em 2001, fundou a Apoena e passou a dedicar sua carreira a humanizar empresas e relações profissionais.

No entanto, o tempo deixou claro que ainda que mudanças pontuais pudessem ser feitas, havia um problema crônico que impedia transformações mais profundas nas organizações que atendia.

“Por volta de 2010, sempre que eu chegava nos clientes ouvia coisas como: ‘Fazemos tudo errado. Temos que mudar. O ambiente é tóxico, as pessoas estão adoecendo’. O discurso se repetia em várias empresas. Então, eu dizia: ‘gente, não estamos falando de gestão da mudança ou de desenvolvimento de pessoas, mas de repensar a forma como fazemos negócios’.” 

Na busca por soluções, Graziela passou a investigar movimentos que representam essa nova economia – caso, por exemplo, do Game Changers e do Sistema B. Assim, chegou ao Capitalismo Consciente, cujo chapter brasileiro (criado em 2013) viria a tê-la como uma das fundadoras e conselheiras. Hoje, ela ocupa o cargo de Diretora de Educação.

O passado é uma roupa que não nos serve mais 

A orientação para stakeholders como meio para transformar a cultura organizacional

Levar ‘a palavra’ do Capitalismo Consciente para a alta liderança das organizações nem sempre é uma missão fácil. Afinal, nessas conversas, é preciso confrontar crenças e quebrar ideias de um modelo de gestão que carrega em suas raízes o individualismo e a obsessão pelo retorno financeiro. Inclusive, Graziela conta que não foram poucas as vezes em que gestores riram em sua frente ao serem apresentados à ideia de pensar além do lucro.

Os questionamentos costumam ser baseados em argumentos do tipo: “Como assim temos que nos preocupar com impacto ambiental e social? Precisamos nos preocupar com fluxo de caixa, valor da ação, com o retorno que geramos para o acionista”.

Nesses momentos, ela se recorda de quando começou a trabalhar com gamification em suas consultorias de gestão humanizada…

Ainda no início dos anos 2000, poucas empresas estavam interessadas em treinar suas equipes usando um conceito desconhecido e visto como ‘brincadeira’. Hoje, porém, a gamificação rodeia nossa vida profissional e pessoal a ponto de até as nossas noites de sono serem gamificadas.

Da mesma forma, faltando menos de 10 anos para o simbólico 2030 e com tantas evidências e tendências sinalizando mudanças comportamentais, sociais, ambientais, econômicas e tecnológicas, o futuro está desenhado. Não há como fugir de um cenário em que, em poucos anos, as pautas ESG sejam regra nas organizações que entenderem que, como bem escreveu Belchior, ‘o passado é uma roupa que não nos serve mais’.

Enquanto movimento, o Capitalismo Consciente vive uma fase de aprofundar seu papel educacional, investindo na criação de conteúdo, cursos e certificações e costurando parcerias com universidades e órgãos como o Sebrae, para propagar sua causa e seus quatro pilares

pilares do capitalismo consciente

Leia também:
A obsessão pelo lucro acima de tudo está com os dias contados?

Mais transformação cultural e menos greenwashing disfarçado de ESG

Nas entrevistas que fazemos com especialistas, líderes e ativistas para escrever as histórias que você lê em A Economia B, temos sempre a preocupação de abordar a temática da transformação cultural nas empresas. Afinal, “não são ferramentas como o PDCA que vão provocar transformações, mas as pessoas”, lembra Graziela. E conduzir empresas ao futuro é mais complexo do que implementar processos.

Neste sentido, Graziela reforça a importância de a empresa estar aberta a repensar, olhar para dentro e construir um caminho, evitando atalhos ou fórmulas prontas. Com a agenda ESG ganhando popularidade é preciso cuidado para não cair em iniciativas superficiais que costumam camuflar o greenwashing.

Afinal, como alertou Fabio Alperowitch, sócio da FAMA Investimentos e ativista do mercado financeiro, em uma entrevista que publicamos recentemente, vivemos uma fase delicada de consolidar a semântica do termo ESG. “Tem gente que acha que ESG é ficar medindo a pegada de carbono e a diversidade da diretoria”, postou dia desses no LinkedIn. 

É inegável que as pautas ESG, Agenda 2030 e Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) chegaram para ficar. Os debates estão sendo levados para dentro das organizações e colocando pontos de interrogação nas lideranças que talvez o CC ajude a esclarecer. 

Afinal, como tornar o capitalismo consciente?

Um estudo do Credit Suisse aponta que enquanto 1% da população do planeta concentra 45% da renda, mais da metade (55%) detém apenas 1% da riqueza global e vive em condições precárias. Além disso, 32% representam uma classe média que sofre com inflação, desemprego e falta de acesso à saúde e educação.

Ainda assim, essa mesma classe média conta com uma parcela relevante de pessoas que acreditam estar mais próximas do 1% do que dos 55% e, por causa disso, com frequência defendem absurdos neoliberais, meritocracia e enxergam bilionários como seres admiráveis, sensatos, inteligentes e que podem nos ensinar muito, até mesmo quando brincam de astronautas e torram bilhões de dólares em meio ao caos social e à urgência ambiental. 

Mas a realidade é implacável: quase 90% da população global ou está atolada na miséria, ou está espremida em um sistema que cria crises em ciclos enquanto mantém privilégios e perpetua a desigualdade.

O infográfico do Visual Capitalist, criado a partir de dados de um estudo de  2021 do Credit Suisse, ilustra bem tudo isso:

Distribuição da riqueza global
Fonte: Visual Capitalist

Para Graziela, praticar um capitalismo consciente significa exercê-lo como uma fonte de circulação de riqueza – e não de acúmulo. Além disso, tem a ver com repensar os preceitos que nos trouxeram até aqui e assumir responsabilidades – a função de uma empresa não pode ser exclusivamente gerar retorno ao acionista. 

“A partir do momento em que o acionista entrou na história, o retorno a curto prazo, a maximização do lucro e o acúmulo da riqueza passaram a ser mais importantes. É essa chave que precisamos mudar, porque o que temos hoje é concentração de renda, de poder, de qualidade de vida.  Acreditamos que o sistema capitalista é o melhor sistema para circular riqueza no mundo, o problema é que não está sendo usado para isso. A gente desvirtuou. Aquilo que poderia ser uma livre troca entre capital e talento passou a ser baseado em ‘qual é o valor mínimo que eu posso pagar para gerar mais retorno e mais rápido para o acionista?’”

A Diretora de Educação do Capitalismo Consciente Brasil tem uma história pessoal que ilustra uma das formas de transformar o capitalismo e repensar o acúmulo de riqueza.

Em 2020, ela decidiu vender sua empresa para se dedicar mais ao CC e retribuir o que aprendeu e conquistou. Ou seja, a questão financeira não era a base da decisão. Então, usou o dinheiro da venda para investir em negócios de impacto.

Graziella Merlina“Entendo o investimento social como um dinheiro que está guardado, mas gerando possibilidades para outras pessoas, sem o olhar de acúmulo. Por isso o papel do investidor é essencial para fazer essa virada. Decidir onde vai colocar o dinheiro, que critérios adotar para investir, saber a serviço de quem está… Isso muda totalmente a regra do jogo”, explica. 

Essa visão tem muito a ver com a orientação para stakeholders, um dos quatro pilares do Capitalismo Consciente. Ou seja, um negócio deve gerar diferentes valores para todas as partes interessadas.

Segundo Graziela, uma vez que esse conceito está claro, a pessoa passa a enxergar além das paredes da organização. “E aí temos que mudar a narrativa. Em vez de contar história de dor e do que não funciona, temos que começar a falar sobre o que funciona”, analisa.

Na esteira ESG, muitas empresas estão procurando se transformar. Ao ser questionada se a motivação pelo bolso não mascara interesses e atrapalha a evolução, Graziela é contundente:

“Honestamente, não importa se a mudança é por amor ou pelo bolso. Se a porta está aberta, a gente entra. Ao entrar, a gente mostra que é possível fazer e temos uma conquista de impacto que não volta atrás. Se a liderança e a empresa estão dispostas a falar sobre consciência, não importa o motivo, é o gatilho que precisamos. Não temos preconceito com a ignição do outro. Cada um tem uma história pessoal que o faz de uma forma ou de outra. Usamos a ignição a nosso favor”, conclui.

Para saber mais sobre o movimento Capitalismo Consciente, leia a matéria que fizemos a partir de uma entrevista com Dario Neto, Diretor do braço brasileiro do movimento.  

Quer receber conteúdo sobre ESG, Agenda 2030 e negócios de impacto em seu e-mail?
Assine nossa curadoria de histórias, tendências, dicas e ferramentas pensada para a sua jornada B pessoal e/ou empresarial

João Guilherme Brotto

Jornalista e co-fundador de A Economia B. Cursando MBA em Desenvolvimento Sustentável e Economia Circular. Há 12 anos trabalho com comunicação empresarial, marketing de conteúdo e jornalismo de negócios.

Comentar

Clique aqui para publicar um comentário