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Empreendedorismo social e a pandemia de Covid-19 – como construir um novo normal mais solidário e resiliente

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Entenda por que o empreendedorismo social é crucial para o enfrentamento da crise atual e também para preparar a sociedade para desafios futuros.

O empreendedorismo social é crucial para o enfrentamento da crise atual e também para preparar a sociedade para desafios futuros. Entenda por que e conheça exemplos que são prova disso

A crise pela qual o mundo vem passando agravou e deixou mais visíveis problemas sociais já conhecidos. Caso, por exemplo, da desigualdade, da falta de infraestrutura e da falta de serviços básicos de saneamento e de saúde. Além disso, a pandemia do novo coronavírus trouxe novos desafios para governos, empresas e cidadãos…

  • Segundo análises da Universidade das Nações Unidas, a crise econômica gerada pela pandemia de Covid-19 pode levar mais de 500 milhões de pessoas à pobreza.
  • Além disso, de acordo com a Organização Mundial do Trabalho, 90% dos trabalhadores informais na América Latina estão sendo afetados pelos efeitos adversos sobre o emprego causados pela pandemia de Covid-19 e pelas medidas destinadas a enfrentar a emergência de saúde.
  • Globalmente, as medidas de confinamento e de contenção afetam cerca de 1,6 bilhão dos 2 bilhões de trabalhadores da economia informal.

A dura realidade é que a Covid-19 está longe de ser “democrática”.

A doença não impacta a todos da mesma forma. Pelo contrário. Os cidadãos mais vulneráveis social e economicamente são muito mais afetados tanto pelo novo coronavírus quanto pelas consequências da pandemia global.

Há décadas os negócios de impacto vêm olhando para esses grupos e áreas mais vulneráveis, atuando para resolver os principais problemas sociais e ambientais que afetam a sociedade em âmbito local e global. E em meio a essa pandemia, o trabalho de quem atua no empreendedorismo social se tornou ainda mais relevante.

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Ações de negócios de impacto em meio à pandemia de Covid-19

O empreendedorismo social cumpre um papel extremamente relevante na sociedade. Empresas que atuam nesse modelo conseguem identificar e atender demandas de mercado que as empresas tradicionais (e o governo) negligenciam. Inclusive, muitos negócios de impacto atendem às necessidades de cidadãos excluídos e vulneráveis. Ou seja, justamente a parcela da população que mais corre risco durante a pandemia de Covid-19.

No infográfico abaixo, apresentamos 10 iniciativas de impacto que estão ajudando a amenizar problemas e desafios gerados pela propagação e pelas medidas de contenção do novo coronavírus. 

Essas histórias oferecem lições importantes e, além disso, apontam caminhos sobre como ser uma empresa economicamente viável e lucrativa e, ao mesmo tempo, contribuir para o desenvolvimento justo e sustentável do planeta.


Empreendedorismo social e resiliência

Os exemplos acima reforçam a importância de modelos de negócio focados na resolução de problemas sociais que impactam o desenvolvimento global.

Maure Pessanha, Diretora-executiva da Artemisia (ONG voltada ao apoio e disseminação de negócios de impacto), ressalta que, neste momento, a inovação social e o trabalho dos empreendimentos sociais voltados a reduzir as desigualdades e amenizar os problemas enfrentados pela população de menor renda se fazem ainda mais importantes. 

Embora eu não possa estimar o que vamos vivenciar em um futuro próximo, acredito que os negócios de impacto social serão cada vez mais necessários para conter a escalada da pobreza e da escassez econômica“, avalia a empreendedora.

empreendedorismo socialNesse sentido, Daniel Izzo, Co-fundador e Diretor executivo da Vox Capital (gestora de investimentos de impacto no Brasil), destaca que a “pandemia econômica” é resultado de uma visão individualista no mundo dos negócios. “É instintivo pensar no bem-estar próprio e dos mais próximos no momento de tomar uma decisão. Porém, o que o coronavírus está nos mostrando é que apenas pensar nos interesses próprios não é mais suficiente”, afirma.

Para o executivo, uma das principais lições que esse momento traz é que é preciso repensar a forma como estruturamos empresas e investimentos. 

Uma epidemia como essa não deveria ser o gatilho de uma crise econômica desse porte. Se o fluxo do dinheiro estivesse preocupado em resolver problemas do mundo real, ou sendo gerenciado com esse objetivo, os efeitos do vírus seriam menos graves ou, pelo menos, poderiam ser solucionados em menor tempo“, salienta Izzo.

Ele reflete ainda que negócios e investimentos precisam estar focados em questões que contribuem para o desenvolvimento da sociedade como um todo. “Quando investimos em saúde, por exemplo, não estamos apenas investindo em saúde como um setor, mas sim investindo na nossa resiliência enquanto sociedade”, frisa.   

Marina Grossi, presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), concorda com essa visão.

Nunca foi tão importante pensar no longo prazo. É na resiliência dos nossos negócios e na aceleração da transição para uma nova economia que estão as principais soluções para sair dessa crise, priorizando impactos sociais positivos“, analisa.

E é por adotar essa visão mais coletiva, sustentável e solidária, que os negócios de impacto são tão relevantes no contexto atual e futuro. 


A importância da colaboração 

O empreendedorismo social tem muito a contribuir não somente para a superação desse momento de crise, como também para a construção de uma sociedade mais igualitária e resiliente – e, portanto, mais preparada para desafios futuros. Afinal, focadas no desenvolvimento justo e sustentável, essas empresas buscam resolver problemas socioambientais.

Contudo, como essas empresas são autossustentáveis – ou seja, não dependem de doações e apoios e precisam gerar faturamento para financiar suas operações –, as mudanças e medidas de retenção da pandemia estão colocando em risco a sobrevivência de muitas delas.

Inclusive, em alguns casos, os resultados socioambientais gerados por décadas de trabalho estão ameaçados…

Nesse sentido, a Diretora-executiva da Artemisia enfatiza que é crucial continuar apoiando negócios sociais, que são ainda mais fundamentais no contexto atual. Apoio, aliás, que pode ser feito de diversas formas – como, por exemplo, por meio de investimentos, mentorias ou colaborações. 

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É importante aproveitar o momento para acompanhar a capacidade dos empreendedores em dar respostas frente aos desafios e pensar em como podemos garantir a manutenção desses negócios no período de crise, pois eles serão fundamentais quando essa tormenta passar para reconstruirmos a sociedade com novas bases. O papel dos investidores e articuladores do campo é decisivo“, realça Maure Pessanha.

Aliás, colaboração parece ser um tema recorrente quando o assunto é o enfrentamento da crise atual gerada pela pandemia de Covid-19…

Um exemplo disso foi a iniciativa desenvolvida pela Heroyz – negócio de impacto voltado a apoiar as operações dos Bombeiros Voluntários, em Joinville (SC) – e pela Beetêxtil – confecção local especializada em trajes para esportes de alto desempenho.

empreendedorismo socialCom o aumento na demanda por máscaras faciais, as duas empresas se uniram para produzir esses itens e manter as operações em funcionamento. Assim, a Beetêxtil conseguiu continuar operando e pagando seus funcionário, e a Heroyz manteve seu propósito de ajudar os bombeiros. 

Eduardo Borba, CEO voluntário da Heroyz, explica como se deu a parceria. “Pela estreita relação que temos, decidimos juntos ser parte da solução na pandemia. E a forma como encontramos para somar nossos talentos com as necessidades do país foi desenvolvendo a HeroMask, máscara com alta proteção contra o coronavírus.”

O empreendedor social detalha que, com essa ação, toda uma cadeia econômica foi beneficiada. Desde indústrias de matéria-prima até empresas de logísticas que atuaram na entrega das máscaras.

Além disso, ele conta que o tripé da sustentabilidade foi respeitado nesse processo. Afinal:

  1. As máscaras foram produzidas com reaproveitamento têxtil (benefício ambiental);
  2. Os produtos foram confeccionados por pequenas indústrias e a preço de custo para manter empregos (benefício econômico);
  3. A margem do produto foi 100% destinada aos Bombeiros Voluntários (benefício social).


Redes de apoio ao empreendedorismo social

Diversas iniciativas colaborativas estão sendo desenvolvidas nesse momento para promover parcerias como essas e dar apoio para a sobrevivência de negócios de impacto. CoVida20 é uma delas.

Francine Lemos, Diretora executiva do Sistema B Brasil, uma das entidades à frente dessa iniciativa, explica que o foco é estimular a materialização de uma nova economia, fortalecendo empresas que já inovam em um modelo de negócios diferente do tradicional.

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Na prática, o CoVida20 é um programa de financiamento para pequenos negócios de impacto que estejam comprometidos com a manutenção de emprego e renda durante a pandemia.

Temos aqui uma grande oportunidade – talvez a única que presenciaremos – de promover mudanças estruturais e disruptivas para propiciar o nascimento de um novo sistema econômico, mais inclusivo, igualitário e regenerativo, para as pessoas e para o planeta“, comenta.

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Também nessa linha, o
Pacto contra a Covid-19 reúne iniciativas voltadas a contribuir com o enfrentamento da pandemia. A plataforma foi lançada pelo Pacto Global, iniciativa da ONU que estimula empresas a alinharem suas estratégias e operações aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Além de reunir sugestões de resposta à crise, divulgando boas práticas empresariais, casos de sucesso e informações úteis para enfrentar a pandemia, o Pacto contra a Covid-19 também faz parte da rede de organizações que promovem o Covid Radar, cujo objetivo é criar uma ponte entre as empresas que atuam nos mais diversos setores da economia para promover colaborações e parcerias com foco em minimizar impactos gerados pela Covid-19 e contribuir para a retomada econômica brasileira.

empreendedorismo socialOutro exemplo de ação voltada a apoiar e fomentar o empreendedorismo social nesse momento de crise é o movimento #ONovoNormal, desenvolvido pela aceleradora de negócios de impacto Quintessa.

Um dos destaques dessa iniciativa é a Plataforma Negócios Pelo Futuro, que convida marcas a impulsionarem as soluções dos empreendimentos sociais que atuam no combate a Covid-19, na recuperação socioeconômica e na redução dos impactos negativos do isolamento social.

Além disso, a Quintessa também está mapeando e conectando potenciais financiadores aos empreendedores de impacto. O objetivo é direcionar ajudas emergenciais a seus beneficiários, stakeholders e comunidades em que atuam.

empreendedorismo socialE ainda, há a iniciativa da Coalizão ÉDITODOS, uma aliança de organizações que reúne vários atores do ecossistema de empreendedorismo negro no Brasil, formando uma rede de cerca de mil empreendedores sociais nas periferias das principais cidades do país.

O movimento busca captar recursos de empresas para montar um fundo emergencial para minimizar o impacto em grupos de empreendedores de maior vulnerabilidade, como mulheres, jovens e afro-brasileiros.

Ou seja, por mais complicado que o momento seja, há muita gente do bem buscando fazer a diferença. Portanto, precisamos dar voz a essas pessoas e a suas iniciativas. Elas inspiram, mostram oportunidades, ajudam a ver que é possível fazer diferente e melhor.

  • Conhece outra iniciativa de colaboração voltada a apoiar o empreendedorismo social?
  • Tem alguma indicação de negócio de impacto que está contribuindo para a construção de um “novo normal”, mais justo, sustentável e resiliente?

Deixe um comentário com suas sugestões e  nos ajude a divulgar essas histórias que merecem ser contadas!

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Ilustração de capa: Pilar García-Ferrer 
Fotos dos especialistas: Divulgação

Francine Pereira

Jornalista, especializada em criação de conteúdo digital. Há mais de 10 anos escrevo sobre tendências de consumo, inovação, tecnologia, empreendedorismo, marketing e vendas. Minha missão aqui no A Economia B é contar histórias de empresas que estão ajudando a transformar o mundo em um lugar mais justo, igualitário e sustentável.

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