Levantamento do MCTI mapeia como o calor extremo afeta a saúde da população brasileira e aponta caminhos para adaptar o SUS a um novo padrão de risco climático
As ondas de calor já representam um risco concreto para a saúde pública brasileira. O estudo Saúde e ondas de calor: mortalidade, morbidade e implicações para o SUS no Brasil, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) estima que cerca de 120 mil mortes registradas no país entre 2000 e 2019 podem ser atribuídas a episódios de calor extremo persistente.
O levantamento também aponta um aumento de internações hospitalares por diferentes causas e reforça a necessidade de adaptar o Sistema Único de Saúde a um cenário de eventos climáticos cada vez mais frequentes e intensos.
A pesquisa foi apresentada durante um webinar promovido pelos projetos ProAdapta e Ciência&Clima, em conjunto com a Fiocruz, e reúne análises sobre como as ondas de calor afetam tanto as mortes quanto as internações hospitalares no país. O trabalho foi conduzido por pesquisadores liderados por Beatriz Oliveira, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), com participação de Ismael Silveira, da Universidade Federal da Bahia (UFBA).
Os dados chegam em um momento de crescente preocupação com os efeitos das mudanças climáticas no país. Durante a abertura do evento, Márcio Rojas da Cruz, coordenador-geral de Ciência do Clima do MCTI, contou que alguns municípios brasileiros já registram temperaturas médias até 3°C superiores às observadas no período pré-industrial. Ele destacou que a tendência é que eventos extremos continuem aumentando em frequência e intensidade ao longo das próximas décadas.
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Como o calor extremo vira uma onda de calor
A pesquisa define calor extremo como todo período de pelo menos dois dias consecutivos em que a temperatura média diária superou o patamar dos 5% de dias mais quentes já registrados naquele local, tomando como referência a série de 1981 a 2010.
A escolha prioriza a intensidade do evento, apontada pela literatura como o fator de maior peso sobre a mortalidade, mais do que a duração isolada. Esse mesmo critério orientou as análises de mortalidade.
Os limiares de temperatura que caracterizam um evento extremo, porém, variam conforme o clima de cada região. O estudo reconhece que as temperaturas médias históricas (1981-2010) são mais altas no Norte, Nordeste e Centro-Oeste e mais baixas no Sul e Sudeste, e o patamar que define os dias mais quentes acompanha esse padrão: onde sempre fez mais calor, é preciso uma temperatura mais alta para configurar o evento.
Impactos vão além da insolação e da desidratação
Embora o calor extremo seja frequentemente associado a casos de desidratação ou insolação, seus efeitos sobre a saúde são muito mais amplos.
A análise das internações hospitalares do SUS identificou aumento de atendimentos por doenças respiratórias e geniturinárias (que afetam os rins e as vias urinárias) em diferentes regiões do país à medida que a intensidade e a duração das ondas de calor aumentam. Entre os problemas mais associados ao calor estão infecções urinárias e casos de litíase renal, popularmente conhecida como pedra nos rins.

Entre crianças menores de dez anos, o principal impacto observado foi o aumento das internações por gastroenterites, condição frequentemente relacionada à desidratação e à maior circulação de agentes infecciosos durante períodos de calor intenso.
Já entre idosos, houve crescimento das internações por doenças respiratórias, problemas renais e doenças endócrinas e metabólicas, incluindo complicações relacionadas ao diabetes.
Um dos achados que mais chamou atenção da equipe foi o comportamento das doenças cardiovasculares. Embora as ondas de calor estejam associadas ao aumento da mortalidade por essas causas, os dados não mostraram crescimento proporcional das internações hospitalares. Uma possível explicação é que muitos desses casos evoluem rapidamente para quadros graves, levando ao óbito antes mesmo da hospitalização.
Idosos e mulheres estão entre os grupos mais vulneráveis às ondas de calor

Os pesquisadores também investigaram como diferentes grupos populacionais respondem aos episódios de calor extremo.
Os dados mostram que idosos apresentam os maiores riscos de mortalidade associados às ondas de calor. Cerca de 80% dos óbitos atribuíveis ao fenômeno ocorreram entre pessoas com mais de 65 anos.
As mulheres também registraram riscos consistentemente mais elevados que os homens em todas as zonas climáticas do país. Em episódios de onda de calor, o aumento do risco de morte entre as mulheres variou de 6% a 16%, conforme a região, enquanto entre os homens ficou entre 4% e 9%.
De acordo com os pesquisadores, fatores fisiológicos ajudam a explicar essa diferença, incluindo características relacionadas à dissipação de calor corporal e alterações hormonais associadas ao envelhecimento.
Há ainda um importante componente social na vulnerabilidade ao calor. Pessoas com menor escolaridade apresentaram riscos significativamente maiores de mortalidade em comparação com grupos mais escolarizados.
Para os autores, a escolaridade funciona como um indicador das condições socioeconômicas e do acesso a recursos de adaptação, como moradias adequadas, climatização de ambientes e acesso mais rápido aos serviços de saúde.
Além disso, os especialistas destacaram durante o webinar que trabalhadores expostos ao sol, pessoas em situação de rua, populações indígenas, quilombolas e moradores de periferias urbanas enfrentam riscos diferenciados diante do aumento das temperaturas.
“A mesma temperatura não produz os mesmos efeitos em todos os territórios”, afirmou Gustavo Souza, da Coordenação-Geral de Mudanças Climáticas e Equidade em Saúde do Ministério da Saúde. Segundo ele, a vulnerabilidade depende da interação entre fatores climáticos, condições socioeconômicas e capacidade de resposta das comunidades.
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SUS precisa se adaptar a um novo padrão de risco climático
As descobertas reforçam a necessidade de fortalecer a preparação do sistema de saúde diante dos efeitos das mudanças climáticas. Os autores do estudo defendem que as ondas de calor passem a ser tratadas como ameaça relevante à saúde pública, com planos de contingência que articulem vigilância ambiental e epidemiológica, atenção primária, atenção especializada e assistência farmacêutica.
Durante o evento, representantes do Ministério da Saúde destacaram o papel do AdaptaSUS (plano nacional voltado à adaptação do setor de saúde às mudanças climáticas) neste contexto. Entre as medidas defendidas estão a ampliação dos sistemas de alerta precoce, o fortalecimento da vigilância climática local e a integração entre serviços de saúde, defesa civil e assistência social.
Os sistemas de alerta, porém, precisam ser ajustados aos diferentes perfis climáticos do país. Como Norte e Centro-Oeste enfrentam eventos mais longos e persistentes, enquanto Sudeste e Sul registram eventos mais intensos, um mesmo critério de alerta dificilmente funciona igual em todas as regiões.
Outra necessidade é melhorar os sistemas de informação em saúde, ampliar o monitoramento de atendimentos de urgência e emergência e qualificar o registro de dados socioeconômicos para identificar com maior precisão os grupos mais vulneráveis. Esses registros são especialmente úteis porque captam aumentos abruptos na demanda durante um evento de calor, antecipando o que mais tarde aparece nas internações e nos óbitos.
A proteção dos grupos mais expostos também foi destacada. A vulnerabilidade ao calor é moldada por fatores estruturais: idosos somam limitações fisiológicas e maior prevalência de doenças crônicas, enquanto pessoas em pior situação socioeconômica enfrentam moradias mais precárias, ocupações mais expostas ao calor e menor acesso a ambientes climatizados.
“O passo agora é aproximar ainda mais essas capacidades da rotina da gestão pública, especialmente no nível local, onde o evento climático encontra a vida real das pessoas e onde a resposta precisa acontecer”, afirmou Gustavo Souza.
Cidades mais verdes podem ajudar a reduzir riscos

Durante o webinar, Maurício Guerra, diretor do Departamento de Meio Ambiente Urbano do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, destacou que as ondas de calor já figuram entre os principais riscos climáticos enfrentados pelas cidades brasileiras.
Segundo ele, iniciativas como o Plano Nacional de Arborização Urbana, a Estratégia Nacional de Soluções Baseadas na Natureza e programas de financiamento para infraestrutura verde podem contribuir para reduzir as temperaturas urbanas e aliviar parte da pressão sobre os serviços de saúde.
A lógica é simples: cidades com mais áreas verdes, árvores e espaços permeáveis tendem a registrar temperaturas mais amenas, reduzindo a exposição da população aos efeitos do calor extremo.
Inclusive, o estudo recomenda avaliar políticas de adaptação ao calor a partir de intervenções no território, como áreas verdes urbanas, preservação da cobertura vegetal e redução do desmatamento. Outra recomendação é aprofundar a investigação das ilhas de calor nas grandes cidades, onde os efeitos do calor extremo se concentram de forma desigual.
Para os pesquisadores, a adaptação passa por essa combinação de medidas. De um lado, fortalecer o SUS para responder aos impactos já observados. De outro, transformar os territórios para reduzir a exposição da população aos riscos climáticos.
A principal mensagem é que as ondas de calor deixaram de ser eventos excepcionais. Elas já fazem parte da realidade brasileira e exigem respostas cada vez mais integradas entre saúde, planejamento urbano e adaptação climática – uma agenda que a pesquisa ajuda a fundamentar.
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