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Farol doClima #1: A Economia B agora é doClima

Farol doClima #1: A Economia B agora é doClima

Quando A Economia B entrou no ar, em abril de 2020, nosso slogan era “ideias e ações para construir o futuro”.

Com um longo histórico na comunicação corporativa e muito inspirados no movimento B, que defende que empresas podem ser forças para o bem, João e eu decidimos usar o jornalismo e o storytelling como ferramentas para inspirar profissionais dentro de empresas brasileiras a fazer diferente e fazer a diferença.

Tudo o que fizemos desde então tinha o objetivo de cumprir essa missão.

Publicamos centenas de artigos, cinco “Estudos B” (nossa série de relatórios temáticos que aprofundam debates sobre assuntos específicos, sempre ilustrando com boas histórias de empresas), 56 edições da nossa newsletter, mais de 30 vídeos em nosso canal no YouTube e centenas de posts nas redes sociais (Instagram e LinkedIn). Nesse tempo todo, usamos nosso espaço para falar sobre organizações do setor privado que a gente realmente acreditava que estavam contribuindo para a construção de um mundo melhor.

Porém, o tempo passou, meus amigos. E enquanto algumas dessas histórias ainda “param de pé” – a Tony’s Chocolonely, por exemplo, continua sua incansável missão de lutar pelo fim da escravidão na indústria do cacau (o João contou essa história aqui) –, outras se provaram o mais puro suco do greenwashing (coisa que, obviamente, a gente sempre combateu – vide este guia lindão que publicamos).

E aí eu vou ter que citar um exemplo específico: o da cervejaria escocesa BrewDog.

Como alguém que há muito tempo se encantou pelo universo da receita milenar que combina água, malte, lúpulo e levedura, acompanhei de perto (e animadíssima) o boom da BrewDog.

Criada em 2007 por dois amigos e um cachorro no remoto norte da Escócia, a BrewDog era “diferente” – ao menos no início. Além de fazer excelentes cervejas e abrir os bares mais legais do mundo, a marca se posicionava em temas políticos, pagava salário digno para todos os seus funcionários (inclusive aderindo oficialmente ao movimento living wage) e chegou a anunciar que se tornaria a primeira cervejaria carbono neutro do mundo.

Inclusive, como parte dos esforços para atingir essa meta, em 2020, a marca anunciou – com uma mega campanha de marketing – que plantaria uma floresta na Escócia:

Mas o mercado cervejeiro arrefeceu e algumas coisas começaram a ficar estranhas no maravilhoso mundo da cerveja para punks, que àquela altura já estava no mundo todo.

Pra começar, em 2021, muita gente reclamou de uma campanha de marketing sobre latas de cerveja feitas de ouro (pois é). A coisa começou a agravar em 2022, quando surgiram denúncias de assédio moral no ambiente de trabalho (ambiente, aliás, em que já não rolava mais living wage). Inclusive, por conta disso, no fim do mesmo ano a BrewDog perdeu seu selo B. E aí, no início deste ano, veio a bomba ambiental: a tal floresta prometida já foi até vendida – silenciosamente, claro – porque deu muito ruim.

Não vou me estender nesse assunto, mas se você quiser saber mais, recomendo este episódio do (excelente) podcast Talking Rubbish. Eu me senti muito acolhida pelos apresentadores James Piper e Robbie Staniforth, que visivelmente também caíram no papinho do James Watt, o (ex-)CEO supermidiático da cervejaria.

Para concluir esse capítulo da história, no início deste ano a Brewdog foi vendida para uma megacorporação e muita gente que acreditou na empresa ficou no prejuízo (literalmente) porque o IPO nunca saiu e quem comprou “ações” do programa Equity for Punks acabou ficando sem nada. Agora (maio de 2026), o James Watt tá dizendo que vai abrir uma nova cervejaria e vai honrar esse compromisso, mas fica difícil acreditar depois de tudo isso. O futuro dirá.

Eu escolhi falar (um pouco) sobre a BrewDog para ilustrar o meu incômodo porque, convenhamos, ela completa a cartela do bingo da decepção corporativa.

Mas, na verdade, de uns tempos pra cá, o que mais fez meu radar para greenwashing (pra não usar um palavrão barrado por meus colegas de time :D) apitar na última potência foram as pequenas inconsistências e os enormes anúncios para coisas que claramente só traziam retorno para os acionistas e rendiam belíssimas campanhas que fazem qualquer coração mole (oi!) derrubar algumas lágrimas.

Pra você ter uma ideia, eu matei um projeto editorial que estava em diagramação (ou seja, quase pronto!) porque apesar de as histórias serem boas, eu sentia que não era bem o que a gente devia estar comunicando…

Quando eu percebi, essa irritação que começou como uma marolinha virou um tsunami que destruiu (quase) tudo o que viu pela frente. A começar por esta newsletter. Até porque, como eu poderia continuar escrevendo sobre empresas que são forças para o bem se, por dentro, eu tava xingando (quase) tudo e (quase) todos?

Apesar do silêncio para o mundo – além da diminuição da frequência no envio da newsletter, quase não usamos as redes sociais d’A Economia B no ano passado –, nos bastidores estávamos criando as bases para uma mudança total de direção. Mexemos muito, em muita coisa, até encontrar o nosso novo caminho. Como você já sabe pelo assunto desta newsletter, agora somos doClima!

Enquanto A Economia B era um veículo independente conduzido por jornalistas que acreditam que clima é uma editorial transversal e precisa estar em tudo, doClima é uma climate tech que combina ciência climática, dados e linguagem acessível para apoiar gestores públicos, jornalistas e organizações na construção de respostas locais à emergência climática.

O jornalismo – e mais especificamente a lente de soluções – segue parte importante da nossa visão de mundo e nos ajudará a contar as histórias de ideias e ações que, essas sim, mudam o mundo.

Nesta edição da newsletter, o João contou uma parte essencial da trajetória que nos trouxe até aqui: os dois anos em que ele trabalhou como jornalista climático no AdaptaBrasil MCTI. Essa experiência revelou, na prática, os gargalos de comunicação que ainda impedem o conhecimento científico de chegar à mesa de decisores públicos, jornalistas e formadores de opinião em linguagem acessível. Foi dessa inquietação que nasceu a ideia de criar a doClima – e foi com a doação do programa climateXchange (organizado pela Syli, organização britânica sem fins lucrativos) que conseguimos iniciar seu desenvolvimento.

A mim, coube falar sobre o que muda para você que nos lê – em breve a gente fala também sobre o que exatamente a doClima oferece para gestores públicos, jornalistas e organizações buscando construir respostas locais à emergência climática.

Enquanto isso, te convido a visitar nosso site e já ter uma ideia. Se ficar com qualquer dúvida ou quiser trocar uma ideia com a gente, me escreve que a gente marca um papo.

Essencialmente, o que muda no nosso perfil editorial a partir de agora é que o foco deixa de ser o que empresas estão fazendo – e podem fazer – pelo clima e passa a ser o que municípios, estados, governos nacionais (e internacionais), sociedade civil, comunidades, ativistas e idealistas estão fazendo.

Sem doom and gloom, ou seja, sem alarmismo e catastrofismo, contamos o que está acontecendo no mundo sempre apoiados na ciência, mas também sempre apontando caminhos que mostram que é possível adaptar cidades, criar políticas públicas que ajudem a mitigar os efeitos da crise climática e construir um futuro melhor para todos.

Organizamos nossas editorias da seguinte forma:

  • Política & Governança Climática
  • Cidades & Adaptação
  • Cultura Climática
  • Soluções

Nas últimas semanas, nosso time de curadoria e conteúdo já começou a trabalhar nas pautas dessa nova linha editorial. Selecionei alguns dos textos publicados que mostram bem que tipo de histórias estamos contando:

Cultura climática
Escolas com coragem climática e a educação na linha de frente da crise do clima
Movimento britânico defende uma educação climática que combine informação, acolhimento emocional e ação coletiva, e apresenta ferramentas e histórias que podem inspirar professores brasileiros a seguir o mesmo caminho
Saiba mais

Ciência & Dados
Governo federal lança painel que monitora presença de agrotóxicos em rios e na vida aquática

Ferramenta reúne dados de bacias hidrográficas de todo o país e busca apoiar políticas públicas voltadas à redução do uso de agrotóxicos e à proteção dos recursos hídricos
Saiba mais

Política & Governança Climática
Brasil discute proibir publicidade de combustíveis fósseis, seguindo paralelo com tabaco
Apresentado em abril, Projeto de Lei 1748/2026 propõe restringir propaganda de petróleo, carvão e gás natural; campanha Fora Publicidade Fóssil mobiliza apoio à proposta
Saiba mais

Soluções
5 soluções que transformam o jeito como as cidades lidam com água, energia e resíduos

Do gelo solar à água tirada do ar, iniciativas apresentadas no ChangeNOW 2026 – maior evento de soluções para o planeta do mundo – mostram como tornar a infraestrutura urbana mais eficiente, resiliente e regenerativa
Saiba mais

Cidades & Adaptação
Guias de arborização urbana indicam quais árvores plantar em cada região do Brasil

Coletânea Brasileira de Arborização Urbana apresenta espécies nativas recomendadas por estado, listas de plantas invasoras a evitar e diretrizes para gestão urbana – do clima amazônico aos campos sulinos
Saiba mais

Um dos conceitos que ancoram nossa nova visão editorial é o hopepunk. A Francine Pereira, jornalista e designer responsável pela (belíssima!) marca doClima, escreveu um artigo muito legal sobre o tema. Convido você a ler para entender por que é que eu acho – com orgulho – que punk mesmo somos nós. 🙂

Por mais que “só” hoje eu esteja apresentando o lado jornalístico da doClima, a parte tech – comandada pelo João e pelo Ericson Nunes, nosso amigo de longa data e um gênio do TI (perdão, meu vocabulário de tecnologia é um pouco restrito) que tá construindo toda a infraestrutura técnica da nossa nova firma – já está executando projetos muito legais.

No meio de maio, por exemplo, nossos dados foram usados pela ONG Clima de Política como material de apoio do curso “Governança Climática Municipal: desafios, oportunidades e caminhos possíveis”, que reuniu mais de 30 assessorias legislativas de capitais e municípios para fortalecer capacidades políticas e legislativas frente à emergência climática.

Confesso que quando recebemos as fotos da turma usando nossos relatórios para promover debates baseados em ciência sobre o que podia ser feito nos seus municípios, ficamos todos um pouco emocionados. Olha isso:

Além disso, estamos conversando com mandatos de vereadores no Brasil para colocar em prática projetos MUITO legais.

Pra você ter uma ideia, a doClima pode ajudar vereadores e vereadoras a desenhar projetos de lei focados em temas climáticos – e, claro, baseados em dados –, além de planejar audiências públicas, promover debates, e muito mais. Ao que tudo indica, o primeiro projeto real-oficial neste campo vai sair na nossa Curitiba. 🙂

Por fim, uma das nossas certezas é que o que vamos oferecer para o jornalismo local será sempre gratuito. E aí, estamos falando de coisas como dados específicos do município do veículo ou da região em que estão inseridos; sugestões de pautas; agente de IA preparado para responder perguntas específicas sobre a localidade; e até mesmo uma editoria climática pronta para ser incorporada ao site do veículo.

Neste momento, cinco veículos de diferentes regiões do país já estão começando a entender como a doClima pode ser útil para sua cobertura climática. Prometo contar aqui quando as primeiras reportagens produzidas com nosso apoio forem publicadas.

Nesse mar de novidades, fecho a primeira edição da Farol doClima contando que amanhã, dia 29 de maio, o João vai subir ao palco do Festival 3i (principal festival de jornalismo independente da América Latina), no Rio de Janeiro, para contar mais sobre essa história. Tem um release no nosso site sobre o evento. Leia aqui.

Enquanto escrevo essas últimas linhas no avião que está nos levando de Madrid ao Rio, fico pensando na grandiosidade de tudo isso que acabei de contar. Não dá pra fingir costume. 🙂

Como o João costuma dizer, a doClima (assim com A Economia B) já nasceu dando certo. A gente está trabalhando com o que gosta e remando num barco que a gente acredita que vai levar TODOS nós para um futuro melhor. O próximo passo é conseguir fazer a doClima contribuir para um Brasil melhor preparado para um futuro mais quente e climaticamente imprevisível. Espero em breve contar aqui histórias que mostrem que tudo se encaixou.

Obrigada por ler até aqui e por estar com a gente nessa jornada. Se quiser saber como a doClima pode ser útil para você, sua organização, parlamentares que você ajudou a eleger etc., entra em contato com a gente e vamos conversar.

Um abraço,
Natasha Schiebel


No início de abril, estivemos em Paris para cobrir mais uma edição do ChangeNOW, evento que há dez anos transforma a capital francesa em um super polo de debates sobre “soluções para o planeta”. Foi nosso terceiro ano consecutivo lá e eu já “tô com roupa de ir” pro ano que vem. Acho a curadoria do evento super diversa, gosto muito da área de startups, enfim, sou fã e não nego!

Este ano, uma das palestras que mais gostei de ver foi a do Timothée Parrique – economista conhecido por seu trabalho sobre degrowth e autor do livro Slow Down or Die: The Economics of Degrowth. Em pouco mais de 15 minutos (#pecadoo!!), ele falou sobre alternativas ao capitalismo e sobre como a linguagem que usamos importa nesse processo. Confesso que saí meio obcecada pela visão de mundo dele e querendo ouvir mais para poder espalhar a palavra.

E aí achei esta entrevista que ele deu para o podcast New Wave. É uma conversa MUITO INTERESSANTE (em inglês) sobre caminhos possíveis para um futuro verdadeiramente verde. Gostei especialmente do conceito de ex-novação.

Vale (muito) o play.

Você concorda que “Como se apaixonar pelo futuro?” é um ótimo título de livro? Pois bem, o livro em si é ainda melhor, garanto.

Rob Hopkins, ativista ambiental e cofundador do movimento “Transition Network”, parte da premissa de que ele viajou no tempo para nos ajudar a construir uma mentalidade de futuro diferente possível. O livro é um ótimo exemplo de hopepunk e – ao menos pra mim – facilita muito a “viagem mental” de futuro possível. Rob quebra diversas alegações “isso é impossível” contando histórias de cidades em que, bem, esse futuro diferente já está acontecendo.

É uma ótima leitura porque, de fato, a gente só acredita que algo é possível se pode sonhar com isso.

No fim do ano passado, tive a honra de ser jurada de um concurso que premiou veículos latinoamericanos com bolsas para produzir reportagens climáticas. Foi uma experiência incrível e ao mesmo tempo sofrida, já que eu tive que contestar algumas boas ideias para dar meu voto a outras maravilhosas.

Uma das sugestões de pauta que tiveram meu voto acabou de ser publicada. Com o apoio da climateXchange (cXc) – mesma iniciativa que apoiou a doClima – a Nonada, organização de cultura, jornalismo e educação pelo viés decolonial, desenvolveu o projeto Luta Cantada: a Música Amazônida pela Justiça Climática.

A reportagem escrita e o mini-documentário mostram como músicas produzidas no território amazônico (do carimbó às toadas de boi-bumbá) alertam há décadas sobre modos de vida ameaçados pela devastação e crise climática.

Vale muito a leitura (aqui) e o play:

Natasha Schiebel

Natasha Schiebel é cofundadora doClima.

Jornalista por paixão e formação, Natasha acredita que boas histórias têm o poder inspirar transformações, e aplica essa lente no seu trabalho.

Natasha é líder climática certificada pelo projeto Climate Reality e especialista em jornalismo de soluções.